venres 07/05/21

"Matoneo" em Colômbia

Colômbia, país querido no qual estive mais de dois anos, viveu nas últimas semanas outra revolta mais, com numerosos feridos e mesmo dúzias de mortos, fruto da repressão das forças de seguridade ao serviço do presidente Iván Duque e a oligarquia.

Como sabem os colombianos e quem esteja atento à realidade do país nas últimas décadas, Duque é o presidente títere posto em 2018 por Álvaro Uribe, que presidira com mão férrea o país durante dois mandatos (2002-2010), duplicando os efetivos e o orçamento do exército, sendo o artífice dos temíveis grupos paramilitares, que assassinaram milheiros de pessoas e produziram milhões de desprazados do campo à cidade, botados pelos terratenentes para quedarem-se com as suas terras.

Sigo em contato com a realidade colombiana por meio de grupos de base comprometidos ali com os direitos humanos, que falam de mortos quase diários; sobretudo líderes sindicais e campesinos. Bastantes mais dos que informam os meios oficiais e a maior parte da imprensa.

Por eles segui com detalhe as mobilizações destas semanas, que tinham que ver com uma subida de impostos que afetava sobretudo as classes médias e populares, e não as grandes fortunas do país; como devia ser num país de tão grandes diferenças sociais, com um pequeno grupo de riquíssimos –cujas famílias o governam alternativamente desde há décadas–, uma pequena classe média e uma grande massa de pobres e mui pobres. Um dos lemas era “Às ruas sem medo”; e pagara-o caro.

O governo de Duque, apesar de anunciar a retirada da reforma tributária, seguindo a Uribe, que pedira que as forças de seguridade “dispararam contra os manifestantes”, falou de militarizar o país e disparar fogo real contra eles. “Matoneo” estatal, como se diz ali. Nesta segunda-feira, o alcalde de Cali –uma das cidades que mais saiu às ruas e na qual morreram mais pessoas– convidou a uma mobilização pela vida e a “restabelecer o espaço público”, pedindo ajuda para “topar saídas e a ruta para a vida”. Muitos grupos de Colômbia pediram também acompanhá-los na oração “pela libertação e a proteção do país”. Unimo-nos a eles.

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