Opinión

Carvalho e Prisciliano de novo

Há dois anos falava nesta coluna sobre Carvalho Calero e Prisciliano (3/6/20). Dizia que Dom Ricardo apenas escrevera algo sobre o nosso personagem, salvo o pequeno trabalho "Prisciliano e Cotarelo"; ainda que também fizera uma leitura de Pola –a sacerdotisa de La vocación de Adrián Silva de Otero Pedrayo– coma herdeira do priscilianismo.

Mas recentemente soube dum poema inédito do polígrafo sobre este galego egrégio. Topou-o Paulo Fernandes Mirás na sua investigação para a tese de doutoramento sobre a poesia de Carvalho. É um poema inserido no livro inédito Feixe levián, que está no Arquivo Carvalho Calero do Parlamento Galego; contém 61 poemas, dos quais 38 são inéditos. Titula-se singelamente "Prisciliano", e seguramente não quis ele mesmo publicá-lo, como aconteceu com outros.

Para quem leva anos fazendo uma esculca sobre a presença de Prisciliano na cultura galega e portuguesa, foi uma grande alegria este achado, que agradeço ao investigador. O pequeno espaço desta coluna apenas deixa lugar a um comentário, pois prefiro recolher aqui estes versos inéditos. Mas quero salientar um verso que fala da experiência mística de unidade que Carvalho vê em Prisciliano, a quem chama "crego meigo inzado de fe oriental". O verso é: "a ollada do iniciado que busca o Un".

"As fadas do mato, que os vellos trouxeron consigo, / croas tecen pra o bispo no seu redor, / que, estilo na destra, da frouma retórica amigo, / fire as táboas que ás veces bica unha fror. / (Lanzal pegureiro, no enxebre sartego labrado: / pra o crego meigo, inzado de fe oriental, / mensaxe trouxeches no escuro do beizo pechado, / e só o sabelo ceiba de morte e mal). / O souto poboa de forzas de lume e de tebras / a ollada do iniciado que busca o Un, / e os vellos espritos das témeras roldas noitebras / se acobadan no abismo sen medo algún. / A vida é unha loita: o sabio só trunfa, e perece / quen non oiéu as verbas do grande Són. / O bispo salaia. O antergo aciñeiro frorece / e unha edra verde apréixalle o corazón".

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