Opinión

Samartinho feliz

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2022. Décimo primeiro dia do mês de São Martinho. Dia do São Martinho propriamente dito. Completa-se hoje um ano desde que um servidor, o artist(inh)a antes conhecido por 'Suso Sanmartín', anunciou nas redes sociais que dava início à sua transição antroponímica: "FROM now on, I want you to call me Suso SAMARTINHO", dizia.

O acaso quis que me fosse oferecida a oportunidade de debutar como colunista de Nós precisamente hoje e, sendo o dia que é, não poderia escrever esta minha primeira coluna sobre outra cousa que não fosse o meu primeiro apelido.

"Apellido de origen catalán...", diz o verbete "San Martín" da GEG. Poderia ser, ho! Mas, gozando o Samartinho da popularidade que goza entre nós, parece-me altamente improvável.

São Martinho (de Tours) é, com efeito, o santo que conta com mais advocações no território do antigo Reino da Galiza. Ele, e não esse Sr. Santiago, deveria ser o nosso Santo Patrono! Ia-se cumprir assim a vontade do seu homónimo de Dume, exprimida nuns versos seus dedicados à primeira das igrejas consagrada ao de Tours em toda a Gallaecia: "A Gália, regozijando-se, escolheu-te como pastor seu; que Galiza inteira te tenha por padroeiro!"

Seja como for, após meio século carregando cum apelido escrito na língua do opressor, com cinquenta anos recém feitos decidim que ja era suficiente e que nem mais um ano ia eu permitir-me esse lixo [sic]. Adeus ao "Sanmartín"! A Deus punha por testemunha de que nos próximos cinquenta anos apelidar-me-ia #emgalego!

Mas "Sanmartín" só podia ser galeguizado como "São Martinho" (em galego-português) ou "San Martiño" (em galego-castelhano). Não havia, aparentemente, outra alternativa. Esse bigodinho (~) -quer em riba do "a" de "São", quer em riba do "n" de "Martiño"- semelhava um obstáculo insalvável. Por uma banda (a de Lainho), eu não queria um "ñ" no meu nome nem de coña. Por outra banda (a de Lestrove) as autoridades político-lingüísticas tampouco me iam permitir na vida grafar o meu apelido de acordo com o Acordo Ortográfico (ÃO).

Com este dilema aparentemente irressolúvel vivia eu até que um bom dia a caminho de Damasco, aliás, a caminho dalgum lugar da Nova Zelândia de cujo nome não podo lembrar-me, caim do cavalo. Como Sã(o Pa)ulo. O de cair do cavalo digo-o em sentido figurado, é claro. Porque, como São Martinho de Tours a caminho de Amiens (capital da Picardia [sic], França), a decisão de cortar polo são e fazer da minha capa um saio tomei-na sem desmontar, no meu caso, do meu carro alugado.

Após meio século carregando cum apelido escrito na língua do opressor, com cinquenta anos recém feitos decidim que nem mais um ano ia eu permitir-me esse lixo

No meu Morraço natal existem as paróquias de Samertolameu (São Bartolomeu) de Meira e Santadram (Santo Adrião) de Cobres, por exemplo. E o lugar do Sanamédio (São Mamede) na paróquia de Beluso. Eu próprio sou natural da paróquia de Samartinho (São Martinho) de Bueu, por mais que o meu primeiro apelido tivesse vindo, efetivamente, de fora. Concretamente do antigo concelho de Geve (pronunciado Je veux), ao lombo do canteiro Cesário Sanmartín Fontán, meu avó paterno.

A-ha! "Samartinho", com ene-aghá e sem til de nasalidade! Essa era a forma que eu procurava, e não encontrava, para o meu primeiro apelido!

A mudança foi mais fácil, rápida e indolor do que eu mesmo poderia ter esperado nunca.

Impedido de fazê-lo na festividade do São Martinho de Dume, como teria gostado (o 20 de março caiu em domingo neste ano), no dia a seguir, segunda-feira 21, solicitei no Julgado de Paz de Bueu a mudança no Registro Civil de "Sanmartín" para "Samartinho".

Estava eu à espera duma carta do julgado a pôr-me impedimentos quando, no domingo 15 de maio, dous meses depois (ainda não), reparo em que a carta da Oficina del Censo Electoral que tinha recebido dias atrás não ia dirigida ao "Xesús Sanmartín", como habitualmente, mas a um tal "Suso Samartinho". Já era oficial! Samartinho oficial! Manda-lhe o caralho!

Pode que São Martinho de Dume, o Apóstolo dos Suevos, fosse um bom peixe. Sabe Deus. O melhor de tudo é que, para além de ser um senhor santo, o samartinho é também um peixe! Um peixe chamado Zeus faber em latim eclesiástico.

Feliz Dia do Samartinho, Gallicia tota patronum, para [email protected]!
 

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