Opinión

A espiritualidade cristã

Dizia Marx que somente sabia uma cousa, que era que ele não era marxista, e quiçá Jesus diria o mesmo se vivesse nos nossos fias  No sermão da montanha Jesus chama bem-aventurados os pobres, num sentido real, mais logo isso trocou-se já na primitiva igreja em pobres de espírito, que é o significado que perdurou no cristianismo, com objeto de comprazer aos ricos que se convertiam, mas a igreja continuou a utilizar a pobreza evangélica como mantra de cara aos fieis para persuadi-los de que não importa viver pobremente neste mundo senão conseguir a vida eterna, apresentando-se assim ficticiamente como uma instituição desprendida dos bens terrenos.  Mas que diríamos dos membros duma família que afirmam que são pobres porque a imensa fortuna está a nome de toda a família? A pobreza em si não é um valor para ninguém, senão um contravalor, pois o desejável é viver uma vida digna na que todos possamos ter o necessário e suficiente para realizar-nos, e é uma atitude indigna apresentar a pobreza como ideal.

Uma vez convertido o cristianismo em religião oficial do Estado polo Edito de Tessalônica em 380, converteu-se numa potência extrativa de primeira magnitude, que utilizava a coação para apoderar-se das riquezas alheias, não duvidando em recorrer com esta finalidade a falsificação e ao terror. No s. VIII, segundo Lorenzo Valha, quiçá um clérigo da basílica de São João de Latrão, inventa um documento para justificar as pretensões territoriais e políticas do papado frente a Bizâncio, que se considerava com direito aos territórios conquistados por Pepino o Breve aos lombardos e doados por este ilicitamente ao papa, por ser esta doação inválida. Para garantir esta apropriação clerical inventou-se a história de que Constantino teria doado ao papa Silvestre o imperium sobre o Ocidente. 

Segundo acredita o bispo católico de Rotemburgo, Joseph Hefele, o concílio de Arles de 1234 decretou, no cânon 21, que "Os testamentos serão redigidos na presença do cura ou do seu capelão; senão, o notário será excomungado e o testador privado da sua sepultura eclesiástica". Já podemos imaginar que supõe isto num momento em que Gregório IX acabava de fundar a inquisição papal que vai sementar o terror na Europa ocidental cristã. Aqui na Galiza, no historial dalguns dos meus antepassados figura que os clérigos deviam perguntar se os fieis fizeram testamento e como ficava. Nos nossos dias a igreja espanhola ofereceu-nos o escândalo das inscrições de dúzias de milhares de bens por parte da igreja católica, dos que carece de qualquer título de propriedade e nos que não investira nem um patacão. Outras práticas eclesiais são a defesa da escravidão, a imposição forçada da religião, as cruzadas, a inquisição, a proibição de ler os livros que não concordam com o seu ideário, o apoio a ditadores sanguinários, como Franco ou Pinochet, a condena dos movimentos espiritualistas medievais que defendiam a pobreza evangélica, como os cátaros, valdenses, albigenses, etc. Toda uma série de excessos polos que os papas andam pedindo perdão, mas sem que se note um claro propósito de emenda nem possibilidade de tapar tanta imundície e tanto desmando. Isto faz que o porvir do cristianismo se apresente muito problemático.      

Como diz o evangelho, "polas suas obras conhecê-los-eis" e a partir delas é de onde cumpre deduzir em que consiste a espiritualidade cristã, que deixou de sintonizar com o homem do dia hoje. Todo isto não se soluciona com mantras sobre a pobreza evangélica que fica desvirtuada pola insensata acumulação de riquezas da instituição eclesiástica, que não se justifica dizendo que o importante é o desprendimento pessoal, que é outro mantra para justificar a acumulação societária e dos ricos. Tampouco se justifica com o terror sobre o destino de ultra tomba, que é percebido como um mantra para submeter o homem no presente aos ditados do poder político-religioso; nem com o convite constante aos fieis para que sejam pacientes e humildes, que se sacrifiquem neste mundo, que tenham resignação porque Deus os compensará no mundo do além. Estes mantras funcionam como a uma espécie de droga, de dormideira para castrar os impulsos humanos para lutar por uma sociedade mais justa e mais igualitária. É por esta razão que Marx afirmou que a religião é o ópio do povo, e é difícil quitar-lhe a razão.

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