domingo 20/09/20

Palavras (I)

Surpreendeu-me a notícia de que a palavra do ano elegida pola Fundeu em Espanha era “emojis”, uma palavra que nem é palavra, que se trata de símbolos que substituem as palavras, de signogramas, pictogramas ou ideogramas como puido ser nas culturas milenárias china ou no silabário japonês, palavra representativa que nem se pronuncia com o som gutural da “j” em castelhano senão com o sonido mais próximo á “j” galego-portuguesa. Não entendia nada se o comparava com todas as campanhas em contra do galego porque, segundo os intransigentes puristas e imperialistas da língua castelhana, o idioma de Espanha é o castelhano e há que defende-lo fronte ás outras línguas nacionais; perguntava-me, como é possível que se pregoe a primazia e riqueza do castelhano para degradá-lo a pictogramas; as justificações que davam para a eleição eram “seu suposto impacto na vida cotidiana, o poder ser entendidos por pessoas de muito diferentes culturas, que não roubam palavras...” mas eu entenderia que se mantivesse como escritura de urgência o uso que já vem fazendo a gente nova desde há muito tempo (os que iniciaram seu uso já não som tão novos agora) de abreviaturas ou apocopes (tal vez a mais antiga seja o “etc.”) ou substituírem letras de som forte por grupos de letras que tenham o mesmo sonido (o “K” polo “que”), ainda que indubitavelmente suponha uma redução da escrita e em definitiva um enfraquecimento da linguagem, incluso uma inseguridade na forma rotunda da palavra escrita.

Estas experiências fazem-me recordar aquela irrupção no seu dia do “cheli”. Certo é que o “cheli” foi um argot ou gíria que também teve, no seu momento, um impacto social, especialmente na juventude, chegando incluso a editar-se seu próprio dicionário, apesar de ser um argot canalha; os emojis (lido, mais ou menos, “emolhis”) som um feixe de pictogramas, o “cheli” inventa palavras com significado próprio ou atribui ás já existentes significado diferente, muita mais riqueza, ainda que seja desagregadora; a pintada, o pictograma de rua, o grafado político ou social de parede tem um caráter de marginalidade. O pictograma é uma redução do milagre que é a palavra, pois Gómez de la Serna já dizia que não cria na palavra como etimologia senão como milagre; que tratemos de substituir esse milagre por monicreques parece-me retroceder á época das cavernas. Francisco Umbral dedicava seu Dicionário Chéli “ás púberes canéforas da acracia”, porque na realidade o cheli, como palavras, era outro milagre, tal vez menor, da acracia.

Por isso, que digam os senhores da Fundéu que “os emojis formam parte da nossa comunicação diária e conquistam dia a dia novos espaços além das comunicações privadas em chats e aplicações de mensageria”, parece-me um dislate e uma exageração. Se para dizer algo temos que escolher um emoji, que será o mesmo escolhido por outras gentes para dizer o mesmo, estamos restando espontaneidade e incluso pessoalidade á expressão, pois o texto das resposta similares que pode dar cada pessoa poucas vezes coincidirá exatamente no uso das mesmas palavras, exceto se se trata de os monossílabos sim ou não. É muito variado como pode expressar cada pessoa seus sentimentos, conceitos, conversa ou escrita, sem limitar-se a um pré-fabricado signo. Resta soltura e frescura na comunicação e nos globaliza na monotonia inexpressiva (sem matizes) do monicreque; todo se reduze a escolher e plasmar o bonequinho correspondente ou adequado que responda ao que tu pretendes comunicar e que nada dirá de ti ao leitor; a escrita de algum modo é autobiográfica, porque nos dá claves sobre o escrevedor, pode ser seco, barroco, expressivo, culto, pode falar-nos de sua origem ou da sua vizinhança, da sua cultura. O emoji é a simpleza total e o anonimato.

Se, como se afirma, o idioma fala a traves do falante também é certo que a escritura lê-nos a nós e pouco pode ler de nos se o que fazemos é pulsar um “clic” para reproduzir o pictograma. A criação de uma língua é um processo coletivo de séculos (a “memória coletiva” de Jung manifestasse paradigmaticamente na fala, no idioma), os emojis são um invento, nem de laboratório, que difundem as redes sociais numa altura determinada. Desde logo preocupou-me que os sres. da Fundeu podam dizer que os emojis “constituem um elemento mais que contribui a lograr o fim último das línguas: a comunicação entre as pessoas” porque eu penso que a o único que contribui é a empobrecer essa comunicação.

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