Opinión

Óculos de grossas lentes

No campo da língua, o regionalismo cultural inócuo e etnográfico a que nos referíamos na peça anterior, ao qual o governante nacionalismo espanhol fai concessons na Galiza, é a RAG=ILG. No proceder desse regionalismo lingüístico, o galego é um idioma quadriprovincial complementar do castelhano e a respeito deste formal e funcionalmente subordinado, o que se revela compatível com a ideologia de supremacismo cultural castelhano própria daquele nacionalismo. O triste é que tal regionalismo cultural, embora sirva para conservar a gaita e o traje típico, nom é capaz de promover o gal. a verdadeira língua de cultura e veículo prestigiado de comunicaçom social, conquistas indispensáveis para a nossa língua sobreviver hoje na Galiza.

A subordinaçom formal e funcional ao cast. que a RAG=ILG impinge à nossa língua em poucos setores se manifesta tam claramente, para além da ortografia, como no ámbito da neologia pós-medieval. Desde o séc. XVI até aos nossos dias, devido à sua subordinaçom sociocultural ao cast., o gal. nom tem tido capacidade para criar de forma autónoma novos elementos lexicais (estagnaçom), polo que, de maneira maciça, os tem incorporado a partir do cast. (suplência castelhanizante), com os conseguintes efeitos de falta de idiomaticidade e funcionalidade e de reforçamento da subalternidade. O regionalismo da RAG=ILG, como responde a essa incapacidade? Já o vimos: em nom menos de 85% dos casos, aceita a suplência do cast., e nos c. 15% restantes, em nom poucas ocasions, mesmo ousa inventar os elementos lexicais, em vez de aplicar a estratégia regeneradora, a coordenaçom com o léxico-padrom das variedades lusitana e brasileira da nossa língua. Para agravar mais as cousas, por se esse filtro ideológico menorizador nom fosse suficiente, os codificadores da RAG=ILG demonstram ainda um abraiante défice de inteligência lingüística.

Umha manifestaçom recente e penosa disso todo surge num artiguinho de divulgaçom científica publicado pola Cámara Oficial Mineira de Galicia no LVG do passado 19 de setembro (p. 8). Aí, os redatores, nas suas escolhas lexicais, fôrom tutelados —dizermos orientados seria inexato— polo dicionário da RAG=ILG, de modo que, numha peça dedicada ao fabrico de óculos (= cast. gafas), o título, enganador, reza "As lentes que levas saen da terra". Como é que no gal. RAG=ILG os óculos (objeto que entre nós só surge após o séc. XV) se chamam lentes? A perpetraçom vocabular terá sido, mais ou menos, assim: no laboratório do ILG, o Excelso A. Santamarina pergunta ao Supremo M. González: "Manolo, como havemos de chamar em gallego às patillas das gafas? / Pom-lhe patillas, hó! / E à montura? / Pom-lhe montura, hó! / E às gafas? / Bueno, para dissimularmos, nom lhe ponhas gafas, pom-lhe lentes!". Observemos que aqui a dissimulaçom é tosca, porque *lentes 'óculos', como *montura (em bom gal., de acordo com o luso-br., armaçom) e *patilla (em bom gal., haste), também é castelhanismo, se bem que castelhanismo B (de registo popular), frente ao castelhanismo A, gafas.

Qual o problema de usarmos em gal., no sentido de 'óculos', o castelhanismo envergonhado *lentes? Para já, é claro, a discrepáncia com o luso-bras. (se galegos, portugueses e brasileiros já coincidimos em olho e olhar [voc. antigos], por que nom tb. em óculos [voc. moderno]?), mas, sobretodo, a disfuncionalidade. Com efeito, no título do artigo referido, o que significa lentes?: 'óculos' ou 'lentes'?! Além disso, se 'óculos' se di no gal. RAG=ILG lentes, entom, nesse gal., como é que se di 'as lentes dos óculos'? "As lentes das lentes"?! Os redatores do artigo —coitados!— resolvêrom-no assim, a improvisar: "Cristais: A esencia da[s] lente[s]" (queriam dizer 'lentes: a essência dos óculos'). Mas isso nom funciona! Primeiro, porque só um vidro especialmente trabalhado pode ser umha lente; segundo, porque nem todas as lentes som feitas de vidro, e, enfim, porque, se lentes significa 'óculos', entom, aqueles que usamos lentes de contacto, sobre as córneas carregamos óculos! No Scórpio, o autor escreveu "óculos de grossas lentes", mas já se sabe que Carvalho era galego de naçom e lingüista competente, dous atributos que neste país o desqualificárom perante o poder para orientar a codificaçom da nossa língua.

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