Opinión

A língua subordinada de 'Ollos de Auga'

O escritor viguês Domingo Villar (1971-2022) mostrou sensibilidade para com o galego, tendo publicado os seus populares romances policiais simultaneamente na nossa língua e em castelhano, como se, em cada caso, houvesse dous originais paralelos, se bem que esse compromisso galeguista, deve reconhecer-se, tenha sido bastante fraco. Com efeito, como ele próprio declarou, o nosso autor quase nunca falava na língua autóctone da Galiza e engenhava os diálogos das suas narrativas muito melhor em cast. do que em gal., para além do facto de nom ter usado as formas galegas restauradas do seu nome e apelido ((Do)mingos Vilar), nem tampouco um gal. de verdadeira qualidade, plenamente regenerado e emancipado, na sua obra. Disto último me apercebim com clareza há poucos meses, quando, na seqüência do prematuro falecimento de D. Villar, por curiosidade, lim a versom gal. do seu primeiro romance, Ollos de Auga (Galaxia, 2006). Deu-me, entom, nas vistas que Ojos de agua / Ollos de Auga, que apresenta enredo empolgante, na versom cast. incorpora umha língua mais genuína e coerente do que na versom gal., que parece derivar, através de um procedimento que caberia qualificarmos de transcriçom, da cast., só a partir da qual também as trad. da obra em ingl., al., it. e sueco terám sido feitas. Sem ánimo de carregarmos nas tintas contra a imperícia expressiva em gal. de D. Villar (e dos seus revisores editoriais!) —hoje muito estendida—, a seguir referimo-nos a lapsos presentes na obra citada com o fito de perfilarmos o que seja umha verdadeira língua de qualidade, alicerçada na tradiçom e coordenada com o luso-bras., radicalmente afastada do galego autonómico cultivado hoje por tantas pessoas, que outra cousa nom é senom um servil decalque do cast.

O nosso autor quase nunca falava na língua autóctone da Galiza e engenhava os diálogos das suas narrativas muito melhor em castelhano

O gal. de Ollos de Auga nom apresenta umha morfossintaxe de qualidade e, para já, falha em dous aspetos fulcrais dela: a construçom dos CD e a colocaçom dos pronomes átonos. Quanto à primeira deficiência, diga-se que, com freqüência, os CD do romance som introduzidos indevidamente pola preposiçom cast. a: "[...] a razón que trouxera aos policias até o seu domicilio [...]." (p. 151); "Leo Caldas [...] saudou ao conserxe [...]." (p. 171)... Quanto aos pronomes, som muitos os casos em que eles surgem erradamente em posiçom pós-verbal num contexto de subordinaçom, deficiência, por sinal, muito comum no gal. autonómico: "[...] suponse que a manipulación dos produtos faina persoal cualificado." (p. 123); "Teño entendido que na fundación facilitáronlles toda a información [...]." (p. 151)...

Por sua vez, o vocabulário de Ollos de Auga é pobre, por nom se ter emancipado do cast. Aqui queremos apenas chamar a atençom para dous usos vocabulares que, por desprezo da coord. com o luso-bras., se revelam incoerentes e, até, disfuncionais. Assim, em genuíno gal.-port., lousa é (um fragmento de) umha rocha xistosa preta que se utiliza como revestimento de telhados (= lousados), de modo que em Ollos de Auga surge corretamente "A entrada, cuberta por un telladiño de lousa a dúas augas [...]." (p. 104); por isso, é incoerente e disfuncional que, nesse texto, na p. 86, surja "Continuaron a andar cara ao coche, polo lousado [< cast. enlosado] [...].", quando o lógico teria sido, mediante coord. com o luso-br., utilizar o neologismo lax[j]eado, derivado de laje. Por outro lado, assim como punhada remete para punho, pegada remete para ('marca que o pé [calçado] deixa no solo'). No entanto, como 'pegada' em cast. se di huella, e huella em cast. designa a marca deixada quer polo pé, quer pola polpa de um dedo, em Ollos de Auga, neste último sentido, junto com o neolog. funcional impresión dixital, habilitado mediante coord. gal-port., também pode ler-se o aberrante *pegada ‘impressom digital’ (p. 53): "Como as pegadas [< cast. huellas] son únicas para cada persoa, agora podemos determinar con certeza quen estivo nun lugar e identificarmos as cousas das que botou man." (!). Como epítome destes usos vocabulares subordinados, reparemos neste passo da p. 181: "Caldas, axudándose dun pano [< cast. pañuelo] para non deixar pegadas [< cast. huellas], acendeu a cámara [...].". Nom pense o leitor que o inspetor Caldas aqui recorreu a um trapo para evitar que os seus sapatos deixassem marcas no chão, nom! Na realidade, devemos entender que ele cobriu com um lenço os dedos da mão para nom deixar impressons digitais! Devemos entender à luz, e sob a tutela, do castelhano!

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