Opinión

Exortaçom ao 'Nós Diario' (e II)

O segundo uso vocabular inadequado que respigamos como exemplo surge numha outra manchete da página do ND supracitada: "Máis de 20 casos de varíola do mono na península Ibérica". Nesta ocasiom, o alvo da nossa crítica é um neologismo pós-medieval, que, enquanto tal, o galego, como já temos explicado, nom deve incorporar a partir do castelhano, mas a partir das suas variedades geográficas normalizadas, o lusitano e o brasileiro, para assim promover a idiomaticidade, a coerência, a economia comunicativa e a vantagem sociolingüística do seu sistema lexical, estratégia, esta, de resposta à estagnaçom lexical, que mesmo é demandada, como vimos, polo princípio codificador quarto da RAG=ILG (!). Dado que nas línguas iberorrománicas o vocábulo comum sinónimo do cultismo símio só se naturaliza com posterioridade ao século XV —como empréstimo proveniente de umha língua africana em português, macaco (séc. XVI), e do árabe em castelhano, mono—, a denominaçom comum dos símios, no galego culto atual, deve ser habilitada mediante coordenaçom com o luso-brasileiro (macaco), e com a expurgaçom do correspondente castelhanismo suplente presente na fala espontánea, *mono (se galegos, portugueses e brasileiros dizemos coelho, golfinho e minhoca [voc. antigos], por que nom havemos de coincidir, tb., em macaco [voc. moderno]?!). Assim sendo, o termo neológico *varíola do mono, em prol da emancipaçom formal e funcional do galego, devia ter sido evitado no ND em benefício de varíola dos macacos ou varíola dos símios (= varíola simiana).

Duas importantes observaçons cabe fazer em relaçom aos termos varíola dos macacos e varíola dos símios (ou varíola simiana), deixando aqui de parte a circunstáncia de, na realidade, os macacos serem apenas hospedeiros acidentais do vírus correspondente. Em primeiro lugar, deve salientar-se que símio, em galego-português, é sinónimo, para todos os efeitos, de macaco, e simio de mono em castelhano, apesar da recente e deplorável moda espanhola de chamar simio só aos macacos antropoides (= macacos superiores: gibons, orangotangos, gorilas e chimpanzés), originada numha traduçom errada do termo ingl. ape no filme O Planeta dos Macacos. Em segundo lugar, tenha-se em conta que macaco, em galego-português, é qualquer símio (ou seja, qualquer primata com as exceçons do ser humano e dos prossímios [társios, lémures e afins]), enquanto que em castelhano, francês, inglês, alemám e outras muitas línguas, macaco, macaque, Makak(e) e formas conexas, todas provenientes do port. macaco, designam apenas um género de macacos, Macaca, que compreende 23 espécies (como o macaco-reso [Macaca mulatta], o macaco-berbere ou macaco-de-Gibraltar [M. sylvanus] e o macaco-japonês [M. fuscata]). Portanto, o equivalente galego-português do cast. macaco e do ingl. macaque é a paráfrase "macaco do gén. Macaca", ou, recorrendo a um neologismo proposto por quem subscreve, cinopiteco.

Observemos que, perante o port. varíola dos macacos e o cast. viruela del mono, o uso no galego do ND do híbrido *varíola do mono se revela berrantemente incoerente (e antieconómico), porque nom há motivo para aplicarmos a coordenaçom neológica com o português na primeira parte do termo, mas já nom na segunda! Além disso, a soluçom *varíola do mono revela-se bem servil em relaçom ao castelhano, pois toma como modelo o termo castelhano na sua pior versom (a recentemente divulgada polos jornalistas madrilenos!), dado que o correto, em cast., é viruela de los monos (ou de los simios ou símica), já que há muitas espécies de macacos, e nom umha única (cf. gripe das aves ou gripe aviária, nom *gripe da ave).

Por último, comente-se um aspeto que sublinha a dificuldade de contrariarmos convençons profundamente arreigadas na estrutura da língua. Como sabemos, a redaçom do ND utiliza normalmente o feminino inclusivo, a melhor das alternativas ao tradicional masculino inclusivo (porque aquele, como este, nom sexualiza nem distorce a expressom). Entom, se aplicássemos a coerência estrita, em vez de varíola dos macacos, na nossa manchete do ND regenerada surgiria varíola das macacas (!). Com casos como este ("corrida de éguas", "a cadela é a melhor amiga do ser humano"), e ainda com alguns outros ("minhas mães som já octogenárias"), o uso coerente do feminino inclusivo revela-se assaz complicado!

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