Opinión

Escandalosa subordinaçom neológica ao castelhano (2/2)

Ainda no capítulo da morfologia, a intensa subordinaçom ao castelhano que carateriza a resposta oficialista frente à estagnaçom neológica do nosso léxico fai-se sentir, em prejuízo da idiomaticidade do galego, na assunçom por parte da RAG=ILG de numerosas idiossincrasias derivativas do espanhol, e mesmo algumhas de nítido cariz irregular. Assim, o DRAG incorpora muitos particípios habilitados como substantivos para denotar processo, um expediente que, entre as línguas románicas, hoje apenas o castelhano ensaia profusamente: *o cribado (por a crivagem/crivaçom), *o enlatado (por o enlatamento), *o lavado (por a lavagem), *o peiteado (por a penteaçom ou penteadela [ex.: neologismo inventado *salón de peiteado ‘cabeleireiro’]), *o revelado (por a revelaçom), etc. Já vimos que, em contra da derivaçom natural recorrer - recurso, percorrer - percurso, o oficialismo propom a aberrante percorrer - *percorrido, e a esse servil decalque castelhano ainda podemos acrescentar um feixe de casos: de demissom, temos demissionário (DRAG: dimisionario), mas, para o oficialismo, de missom, em vez do natural missionário, obtemos o inesperado *misioneiro, cuja única explicaçom, claro, é o cast. misionero (cf. luso-br. missionário, fr. missionnaire, it. missionario, rom. misionar, ingl. missionary, al. Missionar); se, de aparecer, obtemos aparência —o que o DRAG afiança—, como é que esta obra, a partir de comparecer, dá a aberrante *comparecencia, em vez da regular e natural comparência (lat. comparentia)? Mais umha vez, só a adoçom acrítica da idiossincrasia castelhana o explica, como explica, enfim, que o DRAG registe *o cólico, em vez do correto a cólica, dado que a origem deste vocábulo é dor cólica, dor do cólon!

Todavia, onde a subordinaçom neológica ao castelhano praticada polo oficialismo mais lesiva se revela é no domínio léxico-semántico, pois é aí que a funcionalidade da língua se vê comprometida. Já vimos que, para a RAG=ILG, em contra da lógica elementar da língua, umha rata nom é um rato-fêmea, mas umha ratazana (!). Nesta linha aberrante, para o DRAG, a laranjada é de laranja; a limo(n)ada, de limom; os amendoados, de amêndoas, mas a marmelada nom é feita, em geral, de marmelo, mas de qualquer outra fruta (!), porque, p. ex., ao doce de pêssego com que barramos as torradas no almorço, a RAG=ILG chama *marmelada de pexego (cf. *laranjada de limom), enquanto que à marmelada legítima, elaborada com marmelo, aquela designa com o estranho e castelhano nome de *marmelo (!). E se, para o DRAG, com castelhanice, lentes é o vocábulo preferente para denotar os óculos, sob a óptica oficialista, o que devemos entender por lentes de contacto, ou como devemos dizer «as lentes dos óculos»?! Para o oficialismo, um lagostim (~ lagostino), além do crustáceo do litoral galego em forma de lagosta pequena que tradicionalmente tem levado esse nome na Galiza e em Portugal (Nephrops norvegicus; cast. cigala), também é, por servil transferência do cast. langostino, umha gamba-manchada (Melicertus kerathurus); mas, entom, se no mercado ou no restaurante pedirmos lagostin(o)s, o que nos vam dar? Para o oficialismo, umha cobra, além de umha serpente, também é, com serventia castelhana, umha cobra-capelo, o típico ofídio, extremamente venenoso, que os encantadores indianos fam dançar: mas isso equivale a designar em cast. as cobras-capelo como culebras, e, entom, como dirá a RAG=ILG «As cobras-capelo som serpentes muito peçonhentas»? «As cobras son serpentes moi pezoñentas» (= cast. «Las culebras son serpientes muy venenosas»)? Como dirá a RAG=ILG «Foi mordido por umha cobra-capelo»? «Foi mordido por unha cobra» (= cast. «Le mordió una culebra»)? Se umha cobra-capelo vinher a morder-me, oxalá seja da RAG=ILG!

Neste contexto, o cúmulo de disfuncionalidade e falta de idiomaticidade da neologia castelhanizante oficialista é constituído polos casos de indecente cacofonia. Lembremos que a RAG=ILG, durante 21 anos, até 2003, designou a letra quê como *o cu (!). Nom escarmentados por essa gafe, e refratários a qualquer inteligência galega, os codificadores oficialistas ainda hoje nos impingem, e desculpem a crueza, os castelhanismos *o cono ‘figura geométrica’ e *a silicona (correto: o cone, o silicone), os quais nom podem deixar de suscitar entre nós o mesmo efeito escandalizante que em cast. uns hipotéticos neologismos *la coña e *el silicoño! Antón, Manuel, manca finezza!

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