domingo 09/05/21

Desgraça e vergonha (2)

Já vimos que, como norma geral, declararmos supradialetal na Galiza, em cada caso de variaçom geográfica, o elemento galego que já foi selecionado como supradialetal no ámbito luso-brasileiro (variante galega áurea) representa a estratégia mais eficaz e económica, e a mais vantajosa do ponto de vista sociolingüístico, para combatermos a dispersom designativa do nosso léxico patrimonial. A ideia-chave subjacente a este proceder racional é que, se, p. ex., no galego contemporáneo se registam 6 variantes geográficas para designar o órgao produtor da urina (rem, ril, rile, rilo, rim, rinle), compensa declararmos supradialetal na Galiza aquela variante galega, rim, que já é supradialetal em Portugal e no Brasil, mesmo que nom se revele a mais usada hoje polos falantes iniciais de galego, porque ela si é, de longe, a de maior peso demográfico ecuménico (250 milhons de pessoas) e, de facto, a utilizada por mais cirurgiaos, nefrologistas e veterinários, e a presente em mais sítios da internet, documentários, manuais, revistas, enciclopédias, dicionários, etc. No entanto, numha atitude lesiva e irracional, a RAG mostra-se insensível à problemática da variaçom geográfica do léxico galego e cega à correspondente estratégia regeneradora, de modo que, a esse respeito, a sua codificaçom lexical apresenta inúmeras inibiçons e intervençons despropositadas.

No capítulo das inibiçons codificadoras, cabe dizer que, como a monografia referida mostra, a atual versom do DRAG propom, em média, 3 variantes normativas por cada caso de variaçom geográfica, com 2 variantes preferentes por cada caso, números, estes, desorbitados e impróprios de qualquer proposta codificadora eficaz (em comparaçom, O Modelo Lexical Galego, que valoriza as variantes áureas galegas, declara normativas, em média, 1,1 variantes por caso, com 1 forma preferente por caso). De facto, no DRAG som muito freqüentes os casos de 5 ou mais variantes geográficas normativas, entre os quais achamos alguns casos com 17 (como o de ‘vaga-lume’), 14, 12 e 10 variantes padronizadas, e numerosos casos com 9 variantes (!). Esta desistência de propor em cada caso de variaçom geográfica umha única forma-padrom prejudica enormemente a expressom formal galega e, na prática, impossibilita a homologaçom do nosso idioma como língua de cultura. Considere-se, p. ex., a abertura que comunica o ouvido médio com o vestíbulo, conhecida em lusitano e em brasileiro como janela oval: para a RAG, as correspondentes denominaçons galegas som nada menos que 3: para além de janela oval, também fiestra oval e a castelhanizante *ventá oval! Pura ineficácia!

Mais dous exemplos eloqüentes. Em lusitano e em brasileiro, alguém a que falsa e interesseiramente é atribuída a origem de algum mal pode ser chamado, recorrendo a umha locuçom de proveniência bíblica, bode expiatório. As pessoas de convicçons reintegracionistas temos claro que a correspondente locuçom galega, por coordenaçom com o luso-brasileiro, é bode expiatório, mas os galegos orientados polo oficialismo que soluçom empregam? Nom é fácil responder a essa questom: para já, a atual versom do DRAG nom proporciona nengumha soluçom concreta (!), embora, de forma indireta, devamos interpretar que a sua resposta implícita (variantes normativas a designarem ‘macho da cabra’) som as 5 formas seguintes: bode expiatório, cabrom expiatório, castrom expiatório, godalho expiatório e *chibo expiatório. Lesiva indefiniçom!

Enfim, reparemos no alimento chamado em inglês corn flakes, flocos de milho em luso-brasileiro e copos de maíz em castelhano. Como equivalente galego, umha pessoa orientada polo DRAG, em princípio, nom poderá utilizar a soluçom natural, harmónica com o luso-brasileiro, flocos de milho, já que flocos de millo é a soluçom proposta nessa obra para as pipocas (= cast. palomitas), e dado que o DRAG nom atribui a floco o significado de ‘pequena porçom’, polo que esse utente de galego oficialista terá de escolher entre 28 ou, no melhor dos casos, 12 possíveis soluçons (!), pois nesse dicionário 14 som as variantes geográficas declaradas normativas (das quais, 6 copreferentes) para denotar um floco (de neve), e 2 (mainço e milho) as variantes geográficas declaradas normativas, e copreferentes, para denotar o milho: cerelho de milho, fargalho de mainço, fole(r)pa de mainço, galapo de milho... Puro delírio de dIaLetóloGo!

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