Opinión

A volta de Amaro Navegante

No sábado 15 de janeiro a comunidade galega em Lisboa recuperou o festejo do Amaro Navegante. Esta é a apresentaçom que figem no evento, às portas da capela de Santo Amaro. Assim o publico porque assim me deu por escrevê-lo, ao jeitinho de Carvalho Calero

"Auga! Auga! Aaaauuuu! Aaaaaaauuuuu!

Após muitos anos (há quem di que 111), e com certeza numhas condiçons que quereríamos melhores, o brado galego volta a ouvir-se para reclamar a figura de Amaro Navegante. De hoje num ano!

A Galiza é algo assim como a pedra basilar do mito fundacional português.

A fala que ouvimos em Lisboa é a continuaçom dessa em que me criou a minha família alá na ria da Arousa. A diferença entre português e galego nom é linguística, senom doutra ordem, o qual nom nega os nossos jeitinhos particulares. Aqui em Portugal falam galego sem que ninguém o proibisse nas escolas nem nos tribunais nem nos escritórios nem nos quarteis nem nos templos nem nos comércios... Sem que a ninguém lhe ladrassem que falar português era falar mal. Essa, essa é a grande diferença.

E, apesar dessas dificuldades da língua ao Norte do Minho, as pessoas que estudam a sua história dim que mesmo em documentos galegos contemporâneos se registam antes que nos portugueses algumhas palavras como "jeitinho".

Enfim, que o galego e o português som como essas duas gémeas do cinema que som enviadas umha a Londres e a outra a Califórnia, só que neste caso nom sabemos o final do filme.

Poderíamos falar de muitos mais eventos fundacionais da terra lusa que cruzam o Minho, desde as origens da coroa até as paixons do rei Dom Pedro I e da poderosa nobre galega Inês de Castro. Um amor que as conspiraçons políticas nom permitírom que triunfasse, mas que espera contra toda esperança um reencontro, uns olhos que de novo se cruzem... É umha metáfora que encaixa tam bem para as relaçons entre a Galiza e Portugal que mete medo!

Hoje quero contar também umha outra história. Aconteceu aqui pertinho, em Alcântara. No ano 1895 desembarcou em Portugal o primeiro automóvel, um veículo que podia chegar aos 20 km/h. Nunca antes tal se vira, assim que nom atinavam a saber quê pôr-lhe de combustível. Havia quem dizia que o havia que encher de petróleo, diretamente. Por fortuna, alguém avisou de que o depósito o que necessitava era gasolina. Assim que alá fôrom, a comprá-la numha farmácia. (Por acaso, a gasolina era cara, mas nom tanto como o é hoje...)

Pugérom-lhe a gasolina ao carro, mas entom colhêrom medo de que estourasse a máquina. Ninguém se atrevia a lhe dar à manivela para acender o motor (estamos em 1895), assim que chamárom um galego, a quem lhe pagárom para que o figesse. O galego tivo o "jeitinho" que faltava.

A Galiza, sempre nos mitos fundacionais portugueses! É um galego quem permitiu que Portugal tivesse automóveis!

Esse galego de Alcântara, do que nom sabemos o nome, provavelmente viria aqui onde estamos, cada 15 de janeiro, para cantar e dançar com as suas e com os seus compatriotas. Após 111 anos, aqui voltamos. E voltamos aqui graças a pessoas que nos chamárom a atençom sobre esta tradiçom esquecida. A Carme Saborido, o Gabriel André (a quem animo a que termine esse livro sobre a Galiza em Portugal, que tantos olhos pode abrir!), a Maria Dovigo, o Xurxo Souto... E também graças às pessoas que turrárom na sala de máquinas, como o José Escudero, a Raquel Miragaia, o Antón García, a Kalee Prendergast e o incombustível Alberte Campos Paz.

Apesar do nome, Maria Dovigo nom é de Vigo. É da Corunha (ou da Crunha, como bem dizia minha avó Pepa). Maria Dovigo tem um sorriso que ilumina. É filóloga, é poeta, é professora em Lisboa, é académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa e tem umha perseverança rosaliana para ajudar nas causas justas do mundo.

Polo seu lado, o Xurxo Souto fai parte da delegaçom diplomática galega que hoje temos aqui. Delegaçom diplomática... de Montealto, com certeza. Homes como o Xurxo Souto entram poucos por quilo. Essa voz, esse talento, essa bondade, essa grandeza de quem sente o povo! (Nom é isto nengumha figura retórica.) Tem vários livros de narrativa em que recolhe a força do mar. O último, que algo tem a ver com o que aqui nos convoca, é A gran travesía de Chiruca Macallás.

O Xurxo e a Maria sabem, como aquele galego de finais do XIX, o que é dar-lhe à manivela para que o mundo avance.

Viva a pegada das galegas e dos galegos em Portugal!

Viva o povo trabalhador que, com o seu jeitinho, fai andar o mundo!

Viva a Galiza!

De hoje num ano!"

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