venres 28/01/22

A liderança entranhável de Mika Etchebéhère

-(…) De todo se habrá visto. Una mujer manda

la compañía y los milicianos le levan los calcetines. 

¡Para revolución, ya es una grande!

-Como bien dices, es una revolución. ¿La prueba?

Que me habéis elegido libremente para mandar la

compañía sin tener en cuenta que soy una mujer. Si 

estamos vivos cuando termine la guerra, hablaremos de

todas estas cosas”.

Mika Etchebéhère, Ma guerre d’Espagne

Mika Etchebéhère, filha de uma família judía exiliada da monarquia russa, cria-se na Argentina escuitando em casa os relatos dos revolucionários fugados de Sibéria e das prisões zaristas. Aos 14 anos funda com companheiras libertárias a Agrupação Feminina “Luisa Michel”, e aos 18 conhece o grupo universitário Insurrexit, começando uma funda amizade com Alfonsina Storni. Arrancava uma trajetória militante de longo alento, que em Maio do 68 deixará com a boca aberta o estudantado rebelde de Paris: uma senhora de sesenta e seis anos ao pé das barricadas!

Em 1976 dá ao prelo Ma guerre d’Espagne, onde, para entusiasmo do seu amigo Julio Cortázar, conta polo miúdo a sua participação na Guerra civil como miliciana do POUM. Pelejou até o final, mas interrompe abruptamente o seu relato em fevereiro de 1937, coincidindo com a militarização das milícias e a passagem da revolução à guerra anti-franquista. Agora a editorial asturiana Cambalache tira uma nova edição da tradução ao espanhol das memórias de Mika, num formoso libro com valiosas anotações e estudos de contexto. Uma excelente oportunidade para aprender da liderança entranhável –como di Tareixa Ledo apropósito de Lídia Senra- de Mika Etchebéhère. 

A guerra dos homens

“(…) o corpo é para as mulheres isso que

para os trabalhadores assalariados homens é a 

fábrica: o principal terreno da sua exploração

e resistência”.

Silvia Federici

O percurso miliciano de Mika tem um brutal ponto de inflexão: a morte em combate, nos primeiros dias da contenda, do seu namorado Hippo. Até ese momento Mika, a pesar da sua sólida formação militante, permanece num segundo plano mui discreto perante o liderado do seu homem à fronte de uma coluna do POUM. “Yo comprendo”, diz, “que por primera vez no debo seguir a Hippo. Se trata de un asunto de hombres. El mío ha empezado su aprendizaje de jefe”. A guerra, terreno masculinista por excelência, suspende automáticamente os princípios feministas do casal e instaura a clássica divisão sexual do trabalho. A própria Mika descreve-se como uma mulher insegura, constantemente à procura da aprovação de Hippo. Contudo, a assunção desse papel secundário na milícia não é nem muitos menos acrítico: 

“Sin que haya mediado ningún acuerdo entre Hippo y yo, me he instalado desde el comienzo en funciones más pesadas que heroicas: velar por la limpieza de los locales y de los hombres, escribir las cartas a las familias de los que no saben escribir, obtener de Madrid ropa y calzado, impedir las riñas, organizar un botiquín y no sé cuántas cosas más”.

Neste difícil processo da transformação em líder Mika terá que pagar um grande preço: a sua dessexualização radical

O seu companheiro mesmo chega a encarregar-lhe a vigilancia sexual das moças, olhadas antes como um elemento pertubador da tropa masculina do que como milicianas: “Buenos –digo un poco molesta-, me impones tareas no muy brillantes. Sólo falta que me toque velar también por su virginidad”. 

À morte de Hipólito, Mika reage primeiro com o desejo autodestrutivo de não sobreviver-lhe (1), transmutando-o depois numa dedicação total à guerra. Inicia aí uma nova etapa na qual terá que ser ela a que exerça a liderança da milícia. Primeiro fai-no com certos excessos e brusquidades próprios de que se encontra à defesiva e que assegura-se o respeito, dando passo, quando ganha em segurança, a uma liderança entranhável com a qual –dirá-lhe um companheiro-, “sin gritos ni amenazas has conseguido mandarlos”.

Neste difícil processo da transformação em líder Mika terá que pagar um grande preço: a sua dessexualização radical. Os homens não aceitam tanto a chefatura de uma mulher quanto a de uma mão; “No creo en los curas pero la Virgen María es otra cosa”, dixera a Mika uma miliciana, e eis que ela se ia converter nessa virgem vermelha. Aginha se decata de que é posta numa espécie de altar, e então, diz, “me pongo a pensar en mi extraña misión híbrida como mi condición de mujer sin sexo y de comandante madre que no parece chocar a estos españoles tan celosos de su hombría”. Se tem uma reunião com outros mandos militares, entre os seus “rapazes” surgem os ciúmes; se na retaguarda vai cear com um jornalista, no local do POUM não dormem até que volte; se por acaso pega num lápis de lábios, “sin darme cuenta, lo abro, me acerco al espejo y reconozco, asombrada, la que soy ahora: una mujer-soldado que no tiene derecho a pintarse la boca”. Ainda, quando lhe vem a menstruação, “(e)spero a que los hombres estén dormidos para echar al fuego un paquete de algodón empapado en mi sangre, que no es de herida sino el tributo mensual de mi condición femenina”.

A guerra de Mika

“Se não posso bailar, não é a minh

revolução, disse Emma Goldman. Pois, se

não posso mimar, também não é”.

Teresa Moure

Cada vez que qualidades como a dozura, a amabilidade ou o saber escuitar eram atribuídos às mulheres como se fizessem parte da sua natureza, Bourdieu advertia que não se pode esquecer que esas virtudes também são as qualidades que as relações de dominação produzem nas dominadas. Como, pois fazer a guerra sem perder a ternura? Eis o ponto de partida de Mika, quem não hesita em pôr sobre a mesa as próprias inseguranças: as dúvidas acerca do caráter revolucionário da queima de igrejas; o “insuportável” de fusilar um companheiro indisciplinado; as poucas certezas na hora de condenar uma colaboradora dos fascistas… Peregrina de revolução, Mika combate de uma maneira distinta: “El odio no llega a entrar en mí, pero no se lo digo a nadie, ni siquiera a Hippo”. Mas acaso não é aí, na valente posta em comum das vulnerabilidades, nessa oficina de reparação de azas de beija-flores que cantava Silvio, onde emerge o verdadeiro espaço da política?

Nestas memórias de guerra apreza-se bem como esta se desenvolve numa sorte de competição de masculinidade –Mika atribui-a à idiosincrasia hispana- que, se por uma parte serve para impingir a valentia, pola outra dificulta muito a instauração de uma racionalidade bélica: a temeridade suicida torna-se a única forma de ganhar o respeito da tropa, os feridos orgulhosos que se negam a aceitar o descanso minam a frescura da fronte, e uma série interminável de mais riscos gratuitos. Mika fai sagazes observações etnográficas desta realidade, e aginha aprende a manejá-la, por exemplo aprendendo a utilizar certas palavras mágicas (“cojones”, “hombría”…) com as que conseguir o que seja dos seus milicianos. Igualmente, mostra uma delicadeza enorme quando cura os medos dos seus homens sem feri-los no orgulho. A argentina percorre as trincheiras com café e comida quente, reparte xarope, ensina a ler, mima… Os militares profissionais rematarão por reconhecer que ese cuidado na intendência, tarefa amiúde desprezada, é também um factor decisivo. 

Cara às relações de cuidados mútuos

“(…) o factor decisivo na história é, a 

fim de contas, a produção e reprodução

da vida imediata”.

F. Engels

Se no capitalismo se impõe a separação entre a produção e a reprodução, na guerra até a produção se assimila aos desprezados trabalhos reprodutivos: o combate supedita todas as outras tarefas humanas à sua hegemonía. Por que não enviamos alguns milicianos aos campos salvar a colheita do cereal? Pregunta Mika a Hippo. Porque se ofenderiam, querem ser guerreiros; como se ofenderia um camponês se o enviam lavar a roupa. Porém, diz uma mulher na rua, “(p)ara resistir en Madrid no sólo hace falta tener valor, sino saber arreglárselas. Cada uno cría lo que puede, conejos, conejillos de Indias y verduras en macetas”, sendo isso –a pesar da divisão sexual do trabalho- mesmo mais importante do que a audácia militar (2). Mika presta uma atenção insólita à alimentação dos milicianos ao seu cárrego, e chega a pensar se isso não a fará desmerecedora das suas estrelas de capitã. Duvida, mas constrói uma forma de liderar radicalmente nova, radicalmente diferente, sem modelos prévios nem referências. 

Duvida, mas constrói uma forma de liderar radicalmente nova, radicalmente diferente, sem modelos prévios nem referências

Durante o processo de formação da União das Comunidades Indígenas da Nação Yshir, no Norte do Paraguai, a gente começou a referir-se à federação como um "bebé" que precisava ser apoiado até que medrasse e tivesse capacidade para apoiar e manter as suas “parentes”. Esta forma de entender a organização de autodefesa política, tão distinta das do mundo moderno, está íntimamente relacionada com o yrmo, “uma palabra que conota tanto o monte quanto o mundo e o cosmos, que de acordo a vários anciãos está governado pelo princípio de relacionalidade ou dependência mútua de todo o que existe. A reciprocidade entre todas as entidades que co-constituem o yrmo é  fundamental para manter um fluxo de energia que o sustém. É com este transfundo que as normas Yshiro de entender as relações entre humanos e não-humanos, incluindo os animais, devem ser compreendidas (3)”. Mika Etchebéhère, miliciana do yrmo, foi quem de avançar cara ao cuidado mútuo com as armas na mão: 

“Ernesto me alcanza corriendo trayéndome el gorro de lana que puse a secar junto al fuego. Sonrío para adentro al descubrir el lazo extraño que me une a los milicianos. Yo los protejo y ellos me protegen. Son mis hijos y a la vez mi padre. Se preocupan por lo poco que como y lo poco que duermo, encontrando milagroso que resista tanto o más que ellos a las penalidades de la guerra. Todo el catecismo que sabían sobre la mujer se les ha embrollado. Para non declararlo falso, me juzgan diferente, y por tenerme de jefe se sienten en cierto modo superiores a los demás combatientes”.

Mika Etchebéhère, Mi guerra de España, Oviedo, Cambalache, 2014. 

Notas: 

(1) Sobre esta fase do duelo, também habitual entre as viuvas galegas, veja-se: Marcial Gondar Portasany, Mulleres de mortos. Cara a unha antropoloxía da muller galega, Vigo, Xerais, 1991. 

(2) Numa impactante passagem do Farewell to Arms de Hemingway, diz Gino diante das trincheiras: “-A terra está maldita –contestou-. Eu só quigera que crescessem mais patacas. Sabe você que quando chegamos aqui, topamos-nos com que os austriacos tinham sementado plantas em alguns campos?” (E. Hemingway, Adiós a las armas, Barcelona, Círculo de Lectores, 1960, p. 153). Sobre a “jardinheria desafiante” de guerra, Kevin Helpland (Defiant Gardens. Making gardens in wartime, San Antonio, Trinity University Press, 2006) crê que “(os) soldados criaram jardins como uma resposta relacionada com o seu instinto de supervivencia física e mental. Aliás, estes jardins representavam um anelo do confort do lar, uma expressão concreta da esperança e um desejo de vida, paz e futuro”. 

(3) Mario Blaser, “La ontología política de un programa de caza sustentable”, rascunho em espanhol de um artigo posteriormente publicado em inglês na American Anthropologist

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