venres 14/08/20

Diário de Fevereiro * 2014

Há uns dias um crítico literário escreveu sobre o galeguismo que “inegabelmente, unha enorme parte da sociedade segue a identificarse con el, sexa dunha forma politicamente consciente, sexa a través de banalidades identitárias como a gastronómica ou a deportiva”. 

POLA BOCA MORRE O ESTADO (3/2/14)

Há uns dias um crítico literário escreveu sobre o galeguismo que “inegabelmente, unha enorme parte da sociedade segue a identificarse con el, sexa dunha forma politicamente consciente, sexa a través de banalidades identitárias como a gastronómica ou a deportiva”. Provavelmente com “banalidades” queira dizer “trivialidades”, mas, doutro ponto de vista, tanto a comida como o desporto tenhem grande importância niso que Michael Billig chama “nacionalismo banal”: essas marcas nacionalistas que nom som percebidas como tais, e que polo tanto criam hegemonía.

É menos importante, na identidade dumha pessoa ou dum povo, a alimentaçom do que a alta costura? Há umha hierarquia dos ingredientes identitários? Poderiamo-nos remontar ao Parménides de Platom, onde se discute se só há Ideias para o belo e nobre, ou se trambém ao banal e quotidiano –“os cavelos e unhas”- correspondem umhas Ideias. O galeguismo arrasta, tradicionalmente, um exacerbado componente culturalista que desemboca num paradoxo: como vai aspirar à hegemonía, se à sua vez se apresenta como um modo de distinçom? Eis umha naçom que as elites escrevem. Umha e outra vez, cedêrom-se, aos contrarrevolucionários do “galeguismo de lacom com grelos”, espaços massivos nos que se efetua a reproduçom social: dos estádios de futebol à cozinha, pasando pola música pop em galego. A naçom escreve-se e, mais ainda, joga-se, baila-se, luita-se, come-se… Todos estes espaços som “infrapolíticos” –ou “banais”, voltando à terminología de Billig-, mas nom num sentido pejorativo de nom chegar ao político, senom no que infraestrutura, cimentos, base.

Em muitas luitas indigenistas (como as das mulheres e homens-de-milho) variedades autóctonas dum alimento, por exemplo, convertêrom-se em auténticos emblemas da luita contra a assimilaçom. Nestas culturas a adquisiçom de identidade pessoal é um processo, no que um se vai fazendo parte da comunidade a partir de compartir o alimento, co-substancializando-se. Mas também na velha Europa há gastropolíticas. Com Escócia à beira da independência, é un momento ótimo para recordar o fundador do SNP: o chestertoniamo socialista Robert Cunninghame. Canso de razoar com os deputados ingleses, apujo-lhes que queria “um parlamento nacional em Escócia, embora só fosse para sentir o prazer de que os impostos se despilfarrem em Edimburgo e nom em Londres”. Inimigo de patriotismos, a sua sensibilidade alimentícia faria de Cunninghame um magnífico líder para o galeguismo de altura. Morando em Londres carregava contra “Esta rosbífica e pudinesta pátria nossa aparvada polo Porto e a Bíblia”. Só a independencia podia salvar Escócia desses pratos indignantes.

SEIN UND ZEIT (4/2/14)

“Ser” é como lhe chamam os canteiros galegos à veta pola que rompe a pedra. “Tempo”, é como lhe chamam polo Oíncio à rocha da que tiram os bargos, as lousas chás em forma de folha e que se usam a jeito de muro.

ANATOMIAS POLÍTICAS (6/2/14)

Antigamente o povo nahua chamava-lhe “zacapilli” ao clítore, e “zacapilcualt” ao glande do clítore. Umha precissom anatómica que nós só concebemos como médica, e que denota o grande auto-conhecimento que as nahua tinham de si. “Tinham”, porque as nahua de hoje, após a mutilaçom semántica, esquecêrom o nome dos seus prazeres e agora só tenhem um genérico, indeterminado e espanhol “mi parte”.
Hojé é o Dia Internacional da Tolerância Zero com a Mutilaçom Genital Feminino, e falará-se dessas 10 milhons de pessoas que, segundo a OMS, fôrom mutiladas sexualmente. Falará-se sobretodo da África negra e islámica, e quase nada da mutiliaçom europeia: da caça de bruxas à biopolítica da histéria, do Dr. Robert e Demetrius Zambaco e a cliteredectomia de massas às intervençons cirúrgicas em crianças com genitais nom estandarizados no binomio homem-mulher. O clítore, como América, foi “descoberto” polo  homem branco: George Covel, a começos do s. XX. Em 1948 já desaparece da Grey’s Anatomy. O clítore infunde terror.

No Outono passado Xurxo Borrazás comparava a mutilaçom da Galiza com a genital: “Coa ablación non se mata a nena, a mutilación con deixa marcas visíbeis, simplemente se ataca a ledicia de existir, a fonte do pracer, e escríbese no corpo das mulheres a sua condición de sometidas. Se a asumen, sobreviven. Se se revoltan, desaparecen do mapa.

As mulheres mutiladas poden seguir cociñando, trabalhando a terra e coidando os animais, poden ir buscar auga ao río e por suposto poden seguir parindo, sobre todo deben continuar parindo”.
Do “zacapilli” à “mi parte”, de “Galiza” a “provincia del noroeste”…

Também em 6 de fevereiro, mas de 1937, todos os jornais galegos saiam à rua com umha circular do novo estado fascista insertada nas suas páginas: O Entroido era proibido. O prazer livre é terrorista.

ERÓTICA E POLÍTICA DA ERVA

Cunqueiro adianta-se, nas Sam Lucas de Mondonhedo, a Patrick Süskind e toda a literatura dos aromas posterior. Não com elógios do almiscle ou a canela, senão da vulgar erva camponesa, leito dos amores labregos. Cunqueiro descreve o mercado de erva das Sam Lucas como umha geografía de odores: “quando fica deserta a pracinha, noite já, ouve-se cair a água na fonte e aspira-se o finon e fresco odor da amargosa; assim devem cheirar as fadas dos campos, as infanas de Irlanda e da Bretanha, as horas da alva nos prados húmidos de orvalho”. Da amargosa –anthexanthum odoratum- e festucas e glicinas faria Dom Álvaro, “se fosse perfumista em París”, pinguinhas dum perfume “tão carnal e tão alegre”, que apenas destinaria à mais amada mulher. Como um senhorito tímido numa vila tomada polos labregos, Cunqueiro aguarda à que a multidão se desolva para apanhar, tímido, um feixinho de ervas. “Não é como passear, claro está, com Julieta, mas sim é passear com o odor de Julieta”.

Também o Tristão e Iseu de Béroul procuram a molice perfumada da erva. Iseu insiste em alfombrar o leito “com copiosa erva”. De volta com o rei de Cornualha, dentro do Castelo, Tristão “viu a instância, que estava alfombrada de verdor”, nostálgia perfumada do bosque de Morrois. Dom Dinis e Dom João I conheciam a história, mas do Tristão e Iseu galego-português apenas conservamos quatro Lais Liminares no Cancioneiro Colocci-Brancuti, sem rasto de erva. Em todo caso, na invenção céltica do amor aparece a erva, a mesma erva camponesa que a do nosso cancioneiro popular, e que escandaliza o Padre Posse. Um dos primeiros em propor uma República Galega, independente e de vocação atlántica, o Padre Posse era também um curzado contra a “lascívia mais impúdica” do agro galego. Num atardecer, quando o religioso passa em diligência por algum ponto entre a Corunha e Santiago, encontra-se com uma cena herbal que o escandaliza: “estava uma moça pastando bois num prado que tinha loureiros e salgueiros. Não longe dela ceifava erva, amicado, um joven (…) A joven foi por detrás de deu-lhe um empurrão, fazendo-o cair de focinos. Ele ergueu-se para castigá-la da suposta injúria. Ela escapou e ele continuou a ceifar erva. Estas tentativas repetiram-se três ou quatro vezes. No último empurrão seguiu-na de veras, e ela escapava, volvendo-se a ele, incitando-o com as mãos e fingindo que fugia, defendendo-se, até que se meteram entre as árvores, onde deixei de vê-los…”.

Mas toda erótica implica uma política, e a política da erva é uma aposta deleuziana contra a filosofia arborescente e o bosque de Heidegger, tão caro ao pinheirismo. “A erva –escreve Henry Miller em Hamlet- só se dá em médio dos grandes espaços não cultivados. Preenchem os vazios, cresce entre-em médio das outras cousas. A flor é Formosa, a berza útil, a adormideira volve louco. Mas a erva, a erva é o desbordamento, toda uma lição de moral”.

O bosque galego esvaece-se, e seria de néscios pormo-nos a inventar serras enquando as árvores caem sob a destruição generalizada do capital. Em todo caso, quiçá esse ponto de intensidade na ética ao que chamamos Galiza não volte como bosque. Se está a renascer, a sobreviver, é como erva, como contágio nas margens, emergendo entre. A erva da insurreição que vem. 

CONAS CEIVES

“As mulheres são fortes; as mulheres são importantes. Os homens zhun/twa dizem que as mulheres são as chefas, as ricas, as sábias. Porque as mulheres possuem algo mui importante, algo que faz os homens viver: a sua cona. Uma mulher pode trazer vida a um homem mesmo quando está quase morto. Pode dar-lhe sexo e fazê-lo viver de novo. Se ela recusasse, ele morreria! Se não houvesse mulheres ao seu redor, o seu sémem mataria-os. Sabia voçê isso? Se houvesse só homens, todos eles morreriam”.
Vê-l’aí o que Nisa, mulher bosquimã, contou à antropóloga Marjorie Shostak para o seu livro, Nisa, The Life and Words of a !Kun Woman. 

OS CÁRCERES EM TELEVISÃO

Leio nos Dialogues de Gilles Deleuze e Claire Parnet que enviou o tutor da UNED: “Sempre há uma máquina binária que preside a distribuição dos papeis e que faz que todas as respostas devam pasar por perguntas pré-fabricadas, posto que as perguntas já estão calculadas de antemão em função das possíveis respostas a teor das significações dominantes. Assim é como se constitui um padrão tal que todo o que não passe por ele não pode materialmente ser ouvido. Por exemplo, num programa de televisão sobre os cárceres estabelecerão-se as opções jurista-diretor do cárcere, juíz-advogado, asistente social –caso interesante, mas a opção do prisioneiro médio que póvoa os cárceres será rejeitado por estar fora do padrão ou do tema. Nese sentido, na televisão sempre nos “tomarão o pêlo”, perdimos de antemão. Na realidade, embora pensemos que estamos a fala rem nome próprio, sempre estamos a fala rem nome de outro que não poderá falar”.

Os companheiros todos da galería estamos a ver “Salvados” na tele. Os nossos corpos estão de acordó com os Dialogues, sem falta de pasar pola “consciência”. A violência de falar em nome dos Outros. 

CONFEDERALISMO DEMOCRÁTICO NO PAÍS BASCO (18/2/14)

“…insinuam subtilmente que o Estado-nação é
o modelo implícito de toda forma de sociabilidade
humana”.

F. BARTH

Para além de mui questionáveis teleologismos neomarxistas, M. Hardt e A. Negri realizam uma aguda crítica da forma Estado-nação: “Quiçá seja certo, como diz Benedict Anderson, que devera entender-se a nação como uma comunidade imaginada, mas aquí haveria que reconhecer que a sentença se inverte de tal jeito que a nação chega a ser a única maneira da imaginar a comunidade! Toda construção imaginária duma comunidade chega a sobrecodificar-se como uma nação e de aí que a nossa conceção de comunidade esteja profundamente empobrecida”. Na Galiza, isto tivo para nós duas consequências importantes. Em primeiro lugar, o esbanjamento de valiosos recursos da nossa tradição, que ao não serem reconhecidos através das categorias políticas modernas, rara vez se empregaram para a construção nacional (com a excesão, quiçá, dos anos de pré-guerra). Refiro-me aos montes e outras terras em mão-comum, concelhos abertos, tradições comunitárias democráticas e de ajuda mútua, identidade indígena, etc. Em segundo lugar, a assunção acrítica do ‘pack completo’ da nação jacobina (hierarquização, homogeneização, centralismo ‘interior’, etc.) impossibilitou o desenvolvimento duma imaginação política para a democracia radical. Ao colher o modelo da modernização capitalista, aparece o risco de que, “Ao igual que no contexto dos países dominantes, nos países subordinados a multiplicidade e a singularidade das multidões terminam por se negar ao ficar encorsetadas na identidade e a homogeneidade do povo”.

Na Galiza, o questionamento –embora independentista!- do Estado-nação costuma dar em polémicas infrutuosas. Essa desconfiança, sem dúvida, debe-se a que, mais duma vez, essa crítica ao Estado-nação não era mais do que um pretexto para abandonar a defesa da nação e aceitar o Estado espanhol. Mas noutras latitudes a polémica tornou-se praxe quotidiana: entre os indigenismos, sobretudo americanos, mas também europeios como no caso do povo sámi; no movimiento de libertação amazigh; no independentismo curdo… O processo catalão está a gerar debates mui interesantes neste sentido. Também no País Basco. 

Patxi Azparren e Pedromari Olaeta propõem em “La Euskal Herria independiente y confederal” (Gara, 12/2/2014) uma república de entidades comarcais –“eskualdeak”-confederadas, sobre a base do “batzarre” e rejeitando qualquer tipo de “capital” do país que contralize poder e serviços. A confederação vasca teria “um modelo municipalista de democracia radical e participativa, onde as comarcas foram o marco autocentrao da vida social, laboral, económica, assistencial, cultural e política da população”, combinando os avanços atuais com “a herdança dum povo indígena da Europa ocidental”.

Não se trata senão de adatar ao presente o País Basco tradicional, organizado como “uma rede de assembleias de val” e “formas urbanas a modo de assembleias de vizinhos qualificadas de repúblicas”:
“Algo não tão original como pensamos, porque até o século XVII existiram em Europa multidão de pequenas entidades republicanas soberanas. Por exemplo, no processo prévio de incorporação do Milanesado à obediência imperal, a  pessoa que se nomeou a si mesmo Duque, teve de fazer uma estranha transição e denominar-se ‘duque da república de Milão’”.

Mesmo as anti-democráticas cortes reais convocavam juntas de jeito rotatório: a ideia duma “capital” foi “produto da revolução francesa”. (Note-se que o nome dos herrialdes, Guipúscoa, Biscaia, Álava, Navarra… não coincidem com o de nenhuma cidade). A assimilação e pregado aos interesses das classes dirigentes começa –como na Leçon d’écriture de Lévi-Strauss- com o passo da democracia oral a outra escrita. Vão se fixando uns mesmos lugares de reunião, e impõem-se o castelhano e o francés como língua dos “batzarres”.

“Uma norma que excluía a imensa maioria da população. O grupo dirigente usurpa as assembleias populares, que eran abertas a mulheres e homens, em colaboração com o aparato estatal, for castelhano, francés, bearnés ou navarro”.

As assembleias passam de se fazerem ao ar livre, à beira do carvalho paroquial, ao interior das igrejas, chegando mesmo a porem tabuleiros nas ante-igrejas para evitar que se ouvisse o que falavam. 
Azparen e Olaeta consideram chave para este processo a organização nacional vasca de pessoas eleitas Udalbiltza, uma instituição em mão-comum e criada polo movimiento abertzale, que voando por riba das fronteiras, agrupo alcaides e concelheiros de municipios sob administração da C. A. Basca, Navarra, a França, e mesmo Castela-Leom, ao jeito das comunidades curdas confederadas. Construir o país por abaixo, bebendo, como diz Jacques Berque, “o porvir mais racional das suas fontes mais telúricas”. Para isso têm já Udalbiltza, mais de 300 concelhos abertos só em Álava, e um dos povos mais auto-organizados de Europa.

GENEALOGIA DA DEMOCRACIA DE MERCADO

Em La comunità che viene Giorgio Agamben recorda que “o Estado, como tem demonstrado Badiou, não se funda sobre o ligámen social, do que seria expressão, senão sobre a sua disolução, que proibe”. A concreção desta disolução é a marca de identidade de cada Estado.

Aléssi dell’Umbra recompõe, a propósito da insurreição dos banlieus de 2005, a genealogia do mercado eleitoral francés. Na França a cabina eleitoral chama-se isoloir (como este módulo carcerário). Por isso diz dell’Umbra que “na República o isolamento do indivíduo é o que converte a este em cidadão. A mera soma de todos esses individuos isolados com ocasião das eleições é o que constitui a República: noutras palavras, a desintegração de toda comunidade concreta entre os individuos funda a comunidade abstrata da política”. Não em vão a consigna favorita do poder perante as multidões, de Nunca Mais ao 15-M, e a de “que montem um partido e se apresentem às eleições!”. Consigna à qual os partidos “da esquerda” costumam obedecerem encantados. “Na França todo –literalmente- remata em eleições”, mesmo o Maio do 68. O isoloir, marca da disolução francesa.

Na Galiza votamos na urna, palavra cujas aceições são bem claras: 1) caixa de vidro destinada à exibição de objetos ou reliquias; 2) recetáculo funerário. Mas a marca da disolução galega, o nosso isoloir, é o Art. 3.1. do Estatuto de Autonomia: “… gozam de condição política de galegos os cidadãos espanhóis…”

ORGANIZAÇÕES DE MULHERES, ORGANIZAÇÕES MISTAS…

No Norte de Clifórnia morava o povo yurok, que foi bastante investigado. Os etnógrafos homens, interpretando as práticas yurok através dos preconceitos ocidentais, pensavam que as mulheres yurok se apartavam do grupo durante a menstruação para não contaminar os homens. Em Ocidente, desde o Antigo Testamento foram-se sedimentando mais e mais tabus sobre o ménstruo. Na Galiza tradicional a mulher menstruante estragaria a fruta, botaria a perder os chouriços, podrecería a carne salgada, etc. Buckley, que se molestou em perguntar às próprias yurok o porquê do seu isolamento menstruante, obteve uma versão mui diferente: “Uma mulher em período de menstruação debe isolar-se porque esta é a época na que atinge o zênite dos seus poderes. Assim pois, não debe desperdiciar o seu temo em tarefas mundanas e distrações sociais, nem romper a sua concentração em asuntos com o sexo aposto. Mais bem, todas as suas energias devem aplicar-se na meditação concentrada sobre a natureza da própria vida, “para encontrar o propósito da tua vida”, e face a “acumulação” de energia espiritual. O refúgio ou habitação menstrual é “como o banho mascuclino (típico dos yurok)”, um lugar onde “entras em ti mesma e te fazes mais forte”.

UM INFORME POLICIAL

Ignacio Cosidó, director da polícia espanhola, é também um dos integrantes do Grupo de Estudios Estratégicos (GEES), um think tank especializado em assessorar o Governo em temas relacionados com “segurança e defesa”. No passado 3 de fevereiro publicou o seu último informe, “Lucha contra ETA: Aznar, Zapatero, Rajoy”, um inesperado elógio da nova estratégia da esquerda abertzale, que debulha o periódico Gara. É, também, um bom exemplo das ideias “democráticas” que movem as forças policiais.
O GEES pensa o Estado, na sua luta contra o independentismo basco, como se fosse uma organização de manual, com distintas “frentes”: a policial, a política, a internacional… Todas elas, menos a policial, estariam em retrocesso contra o soberanismo basco. A “frente judicial” seria a mais debilitada, posto que “Hoje, o Tribunal Constitucional e o Tribunal Supremo converteram-se em elementos desestabilizadores na luta contra ETA, mui pouco fiáveis. O caso da Audiência Nacional é pior: desenhada como tribunal excecional para lutar contra a banda, dedica os seus recursos a outras questões –casos de corrupção, vítimas do franquismo por exemplo- enquanto nas suas salas os etarras recoletam hoje mais éxitos que as suas vítimas”. Também teria sido “erosionado grevemente” a “frente internacional”, como viria a demonstrar a revolução do Tribunal Europeu de Direitos Humanos contra a doutrina 197/2006, “impensável na França ou a Grã Bretanha”.

Em quanto à frente pentenciária, o GEES observa, com a sua particular ótica, “uma mudança de direção”, de forma que o cárcere se estaria a empregar para a “reinserção” (isto é, o que constitucionalmente justifica a existencia do cárcere…) Mas a desesperação do GEES é a “frente política”, onde detetam um perigoso “retrocesso estratégico de primeira orden”. Diz o think tank que “o pior é que Bildu e o resto de marcas de ETA se converteram na vanguarda atual do nacionalismo basco”, “com as marcas pró-etarras gobernando no País Basco”. Enquanto o PP e o PSOE estariam “desmovilizados eleitoralmente, as marcas políticas de ETA ameaçam com converter-se na primeira ou segunda força política no País Basco e Navarra, e prevém encabeçar em breve o processo secesionista basco”. Em definitiva, “provas inequívocas” de que as perspetivas da esquerda abertzale “são hoje melhores de que quando punham bombas”. E de que a polícia espanhola é umha banda organizada contra a democracia real.

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