mércores 05/08/20

Filha da mãe da quarentena

Tempos de reflexão. Essa quarentena me trouxe um momento de pausa necessária, onde fui forçado a refletir tudo que vinha fazendo de forma acelerada com a exigência e regras que o mundo moderno dita e cheguei a conclusão de que, na verdade, não havia necessidade de eu estar correndo tanto assim.

"Por que a pressa meu filho? Em que lugar você quer chegar que não pode ir caminhando através do curso normal da vida? Mal consegue respirar! Num bocejo dorme e num soluço acorda" ouvi algumas vezes como forma de repreensão.

Havia muita razão nessas sábias palavras, mas eu andava tão rápido que tropeçar numa pedra era motivo para uma corridinha para não ter que me entregar à pausa do momento da dor. Em outras palavras: eu nem refletia para não mudar de ideia.

Com essa conversa de que tempo é dinheiro, de que a vida não para, de que podemos morrer a qualquer momento e por isso temos que aproveitar o mundo como se não houvesse amanhã...hum...não sei! Temos que meter uma vírgula nisso daí para respirar. Ou até um ponto final para reprogramar. Tentamos de todas as formas abraçar o mundo com as mãos nas costas e terminamos com elas imobilizadas por uma força alheia a nossa vontade.

Na fome de estar atento a todas as coisas, de estar em todos os lugares, de ser sempre presente, atual, conectado, tendências, cool, workaholic, whatever… eu já estava me esquecendo do essencial: do sossego do meu lar.

Tudo que estava dentro de casa ficava para depois. Acontece, que o que estava dentro de casa era a minha vida. Foi tudo que eu demorei anos para construir, para deixar do jeitinho que eu queria e agora estava deixado de lado. Tão estúpido isso, não é? Parei de fazer coisas simples, como passar mais tempo em casa sem fazer absolutamente nada, de cozinhar o meu prato preferido, de ler um livro na cama e não no metro a caminho do trabalho, de conversar horas seguidas na sala até bater o sono, de passar aleatoriamente os canais de TV mesmo sabendo que não vou encontrar nada que me interesse…Mas, durante a quarentena, eu consegui e ainda consigo fazer isso e muito mais...até organizei a arrecadação! Um verdadeiro avanço.

Com a filha da mãe da quarentena, eu percebi que poderia sim desacelerar e que tudo bem, que ninguém iria morrer por causa disso. Que deveria ter mais tempo para olhar para o meu interior. Comecei a priorizar o que realmente vale à pena fazer e o que/quem eu realmente deveria dar mais importância. Parei de me programar com muita antecedência e comecei improvisar um pouco. Concluí que o bom mesmo é viver o presente de olho no futuro e não viver o presente na dependência de um suposto futuro que é uma grande incerteza e que tivemos a infelicidade de comprovar com essa pandemia da COVID-19.

Passei o ano de 2019 a programar vários projetos para 2020 que (ainda) não se realizaram. Mas, entretanto, consegui realizar outros que estavam engavetados e não programados porque tive tempo para pensar melhor, organizar e executar...e olha que nem precisei de um ano inteiro para fazer isso. Foi mesmo no improviso. E deu certo!

O ano de 2020 está sendo aquela típica surra de chinelo havaiana que você levava dos seus pais quando desobedecia uma ordem deles. Estamos apanhando agora para lembrarmos da nossa tarefa e do nosso lugar no mundo. Esta surra é para lembrar que temos que ser mais humano, que tudo passa e que, por isso, devemos ser mais amigos, mais humildes, ter mais amor, praticar o perdão, ter mais empatia...Nada que já não devêssemos ter, ser e saber, mas que estava "esquecido" exatamente como "esquecíamos" de cumprir aquela tarefa ordenada pelos nossos pais e, por isso, ficávamos de castigo no cantinho da reflexão para repensarmos nossas atitudes. No caso, hoje, o cantinho é a casa toda!

Pense que agora é aquele momento da sua infância. Estamos de castigo naquele mesmo cantinho para pensarmos onde erramos e então termos a chance de corrigir, enquanto ainda dá tempo, para assim evitarmos levar uma nova surra que, eventualmente, poderá não lhe dar uma nova chance de reflexão.

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