luns 03/08/20

Saúde e crise ambiental

A invasão dos nossos ecossistemas por um organismo novo, a COVID-19, domina toda nossa vida. Os informes mais recentes dão para Galiza a 3 de abril 5219 casos com uma taxa provável de contagio de 296 casos por 100.000 habitantes, que é muito alta. Mas para o ecologismo, a Terra, como um grande sistema integrado está no centro do problema. Terra e vida mantêm um namoro eterno e intenso que dura mais de 4000 milhões de anos. Nós, humanas, invasoras por excelência, estamos a livrar batalha contra este microrganismo mínimo em tamanho, mas eficaz no processo da sua colonização de nossos corpos. Os parasitos são exitosos na medida em que não matem o hóspede no que vivem. Esta tolerância mutua é produto da evolução conjunta das duas espécies. Mas a COVID-19 é uma enfermidade nova e por isso tão mortal. Na semana seguinte a termos declarado a Emergência Climática nos diferentes países, foi declarado Estado de Alerta pela COVID-19. Uma crise sobrepus a outra. A espécie humana, a maior invasora, tinha ultrapassado os limites do capital ecológico do Planeta. Dominada polo sistema económico-social capitalista, que fornece de cousas em grandes quantidades e por pouco dinheiro, conseguíramos desarranjar o mundo em seu conjunto. De súpeto, tudo ficou estagnado. Chegou a COVID-19 e mandou parar. A poluição atmosférica baixou como se a Terra estivesse a se "purgar". Temos um modelo que desenha "Territórios Escuros" invisíveis, habitados pelo trabalho escravo que se desenvolve entre a insalubridade da miséria e a indignidade humana, junto "Territórios Luminosos" visíveis, ocupados por humanos a comprar, movimentar-se e usufruir do Mundo sem qualquer inibição e com insolente maltrato ao ambiente comum. No preço dos objetos fabricados nos territórios escuros não ficam inclusas as emissões de gases devidas ao transporte, a poluição das águas e a insalubridade. Hoje, no colapso social, podemos dizer: Que caras nos saíram aquelas roupas ou aqueles telemóveis vindos do outro lado do Planeta, aquele alumínio que consume mais energia que toda Galiza junta! Ironicamente os objetivos marcados na declaração de Emergência Climática estão hoje mais perto de serem alcançados. Mas, como na guerra, a custo de muitas vítimas. Falta ainda sabermos como afetou, nas doenças respiratórias, a descida da poluição atmosférica em gases e micro partículas sobre as grandes urbes. Segundo a OMS, a poluição do ar matou cerca de nove milhões de pessoas em 2015, responsável pelo 20% da mortandade chegando a ser causa de mais de 10.000 mortes anuais em Espanha. O caso de Madrid pode ser paradigmático. Para além do descontrolo que representa ser uma cidade capital dum estado e duma autonomia (sinalizada, digamo-lo, pela corrupção) as más condições ambientais previas podiam ter contribuído para piorar o efeito da COVID-19. O grande desarranjo ambiental do mundo chamado mundialização e a deslocação das empresas é também responsável pela rápida invasão do vírus e uma consequência do capitalismo desbocado em que estamos. Segundo o PNUMA, as zoonoses (doenças transmitidas de animais para seres humanos) estão em aumento devido a destruição dos habitats selvagens e ao confinamento de animais em macrogranjas. A província de Hubei, grande produtora de carne, é caracterizada por ter muitos estabelecimentos deste tipo. Tudo parece indicar que a COVID-19 é uma zoonose. Escandaliza também a perda de autossuficiência de Ocidente, dependendo dos envios de material sanitário desde a China. Na procura do consumo e do lucro rápido perdemos a capacidade de auto abastecer-nos. Não é terrível? É obrigado reconduzir o modelo económico mundial para a procura da soberania alimentar e industrial. Para as pequenas produtoras que preservam a variabilidade genética de plantas e animais e reduzem os transportes. Não é certo que seja mais barato produzir longe do consumo. É um engano. O novo modelo tem que incorporar custos ambientais e sociais nos produtos ou fracassaremos como espécie inteligente. A Terra, em seu conjunto, pouco se importa com as nossas torpezas. A vida seguirá sem nós. De outra maneira.

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