Imprimir

Sucesso pessoal, triunfo coletivo, fracasso social

Carlos Garrido | Professor de traduçom técnico-científica na Universidade de Vigo e membro da Comissom Lingüística da Associaçom de Estudos Galegos.

Nós Diario | 13 de febreiro de 2020

O autor, a partir do galego, publica um dicionário no Brasil, o que representa um sucesso da estratégia reintegracionista, mas também assinala um fracasso cultural da sociedade galega.

Escusem-me que este artigo enferme de personalismo e de certa imodéstia, defeitos, porém, suficientemente compensados, acho, polas implicaçons coletivas do assunto aqui focalizado. A meados do passado mês de dezembro, o que subscreve publicava na Editora da Universidade de São Paulo o Dicionário de Zoologia e Sistemática dos Invertebrados, obra terminográfica destinada a tradutores e a pesquisadores, professores e estudantes universitários de Biologia que contém cerca de 60.000 termos em galego-português, castelhano, inglês e alemám, e cerca de 7000 definiçons redigidas em galego-português, respeitantes à morfologia, ecologia, evoluçom e sistemática dos protozoários e dos animais invertebrados. Julgo que tenho algum direito a considerar a publicaçom desta obra como um sucesso individual, umha vez que ela culmina umha aturada dedicaçom pessoal à investigaçom lexicológica e tradutiva, trajetória de que som marcos prévios as minhas monografias Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom (2011), Manual de Galego Científico (2011) e A Traduçom do Ensino e Divulgaçom da Ciência (2016).

A recente publicaçom no Brasil do nosso Dicionário de Zoologia e Sistemática dos Invertebrados, além de um sucesso pessoal, também representa, claramente e sobretodo, um triunfo coletivo, um gozoso triunfo do reintegracionismo galego. Com efeito, a partir de um original redigido num galego naturalmente coordenado com o luso-brasileiro —o que reforça a autenticidade e expressividade da sua gramática (p. ex., rendimento do infinitivo flexionado!), a enxebreza e eficácia do seu léxico (p. ex., prejuízo nom se confunde com preconceito!) e a identidade e projeçom da sua ortografia (250 milhons de pessoas escrevemos minhoca sem o ñ castelhano!)—, e aplicando-lhe umha leve adaptaçom às particularidades da variedade brasileira, conseguimos publicar no maior país da Galaicofonia e numha das principais universidades ibero-americanas. Esta publicaçom brasileira, aliás, segue àquela que, em 2013, e com a mesma estratégia expressiva, realizáramos em Portugal do manual universitário Biologia Evolutiva, de Ulrich Kutschera, traduzido do alemám e editado pola Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa.

Brasil também assinala, infelizmente, um lamentável fracasso cultural da sociedade galega: trinta anos voltados desde o falecimento de Carvalho Calero

Ainda noutro sentido, a publicaçom no Brasil do nosso dicionário terminológico, por sinal dedicado ao Mestre Ricardo Carvalho Calero, constitui um triunfo da estratégia reintegracionista: a obra, na melhor tradiçom autonomista do reintegracionismo, integra os legítimos particularismos lexicais galegos, bem marcados, em pé de igualdade com as soluçons lusitanas e brasileiras, sendo porventura esta a primeira obra lexicográfica lusófona que procede de tal maneira fora da Galiza. Assim, por exemplo, no dicionário, muitos coleópteros som designados mediante a duplicidade besouro [Pt+Br] / escaravelho [Pt+Gz] (em galego, abesouro constitui variante dialetal de abelhom), e umha espécie de díptero surge como mosca-da-cerejeira [Pt+Br] / mosca-da-cereijeira [Gz] (cereijeira, variante galega supradialetal frente a cerdeira).

Eis, pois, em açom, o efeito projetivo do reintegracionismo, o qual, como derivaçom do seu efeito injetivo acima descrito, nos permite publicar/comunicar mediante o galego, e a partir do galego, na Galiza, em Portugal, no Brasil. E, com este gozoso pano de fundo, temos agora de constatar que a vinda a lume do nosso dicionário no Brasil também assinala, infelizmente, um lamentável fracasso cultural da sociedade galega: trinta anos voltados desde o falecimento de Carvalho Calero, o reintegracionismo continua marginalizado polo poder político autonómico e condenado ao estranhamento social. Na atual Galiza, nom teria sido possível a publicaçom, em galego-português, do nosso dicionário, e ele dificilmente encontrará hoje aqui um público cabalmente preparado para a sua receçom. Nom podemos esperar que a raposa guarde as pitas, mas quanto mais tempo demorará o galeguismo todo, todos os galegos de naçom, a abraçarem de forma conseqüente a causa do reintegracionismo, a causa do galego extenso e útil, da língua em plenitude?

 

Podes ver este artigo na próxima dirección /opinion/carlos-garrido/sucesso-pessoal-triunfo-coletivo-fracasso-social/20200212114347091245.html


© 2020 Nós Diario