Vivendo com os OGM, uma carta da América

ONG, cientistas, grupos anti-OGM, celebridades, produtores alimentares e outros, representando 57 milhões de cidadãos norte-americanos, publicaram esta carta aberta à Europa alertando para os perigos das culturas de Organismos Geneticamente Modificados. Artigo tirado do jornal Esquerda.net.

Liam Wilde Flickr
photo_camera [Imagem: Liam Wilde / Flickr]

Escrevemos esta carta enquanto cidadãos preocupados para partilhar convosco a nossa experiência de plantações de organismos geneticamente modificados (OGM) e os estragos que provocaram ao nosso sistema agrícola e a adulteração dos nossos alimentos.

No nosso país, o cultivo de OGM já representam cerca de metade da área cultivada. Cerca de 94% da soja, 93% do milho e 96% do algodão cultivados são OGM.

O Reino Unido e o resto da UE ainda não adotaram o cultivo de OGM como existe aqui, mas já estão sob uma tremenda pressão dos governos, lóbistas da biotecnologia, e grandes empresas para adotarem o que nós hoje consideramos uma tecnologia agrícola fracassada.

As sondagens mostram de forma cosistente que 72% dos norte-americanos não querem comer alimentos com OGM e mais de 90%  defendem que os alimentos com OGM devem conter essa informação visível nos rótulos.

Apesar desta opinião massiva, os esforços para que os nossos governos federal e estaduais regulem melhor ou simplesmente rotulem os OGM estão a ser atacados pelas grandes empresas alimentares e de biotecnologia, que dispõem de orçamentos ilimitados e influência desmedida.

Gostaríamos de partilhar convosco o que nos trouxeram quase duas décadas de cultivos de OGM nos EUA. Cremos que a nossa experiência serve de aviso para o que pode acontecer aos vossos países se quiserem seguir esse caminho.

Enquanto avaliam a vossa escolha, gostaríamos de partilhar convosco o que nos trouxeram quase duas décadas de cultivos de OGM nos Estados Unidos. Cremos que a nossa experiência serve de aviso para o que pode acontecer aos vossos países se quiserem seguir esse caminho.
 

Promessas não cumpridas

O cultivo de OGM foi lançado no mercado com as promessas de que iria aumentar o rendimento e diminuir o uso de pesticidas. Não cumpriu nenhuma delas. De facto, um relatório governamental recente indica que o rendimento dos cultivos de OGM podem ser mais baixos que os seus equivalentes sem OGM.

Disseram aos agricultores que os cultivos de OGM iriam também render mais lucros. A realidade, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, é diferente. O lucro é muito variável, enquanto o custo de cultivar estas plantações subiu em espiral.

As sementes de OGM não podem ser guardadas para replantar, o que significa que os agricultores têm de comprar sementes novas todos os anos. As empresas de biotecnologia controlam o preço das sementes, que custam aos agricultores entre 3 a 6 vezes mais do que as sementes convencionais. (10) Isto, combinado com a quantidade de químicos que a plantação requer, significa que o cultivo de OGM sai mais caro do que o cultivo convencional.

Devido à importância desproporcionada dos cultivos OGM, as variedades de sementes tradicionais já não estão tão disponíveis, o que deixa os agricultores com menos poder de escolha e de controlo sobre o que estão a plantar.

As sementes de OGM não podem ser guardadas para replantar, o que significa que os agricultores têm de comprar sementes novas todos os anos. As empresas de biotecnologia controlam o preço das sementes, que custam aos agricultores entre 3 a 6 vezes mais do que as sementes convencionais.

Os agricultores que escolheram não cultivar OGM podem encontrar os seus campos contaminados com os cultivos OGM, em consequência da polinização cruzada entre espécies próximas de plantas e ao facto das sementes OGM e não-OGM serem misturadas no armazenamento.

Por causa disso, os nossos agricultores têm perdido mercado de exportação. Muitos países têm restrições ou pura e simplesmente proíbem o cultivo ou a importação das colheitas com OGM, e em resultado disso essas colheitas tornaram-se responsáveis pelo aumento de conflitos comerciais quando os carregamentos de cereais aparecem contaminados com OGM. 

O florescente mercado de produtos biológicos aqui nos EUA também está a ser afetado. Muitos produtores biológicos perderam contratos de sementes devido ao alto nível de contaminação. Este problema está a aumentar e espera-se que se torne muito maior nos próximos anos.
 

Pesticidas e "super-ervas daninhas"

Os géneros mais cultivados de OGM são conhecidos como os cultivos 'Roundup Ready'. Estas plantações, sobretudo de milho e soja, foram transformadas geneticamente de forma a que quando são pulverizadas com o herbicida Roundup - cujo ingrediente ativo é o glifosfato - as ervas daninhas morrem mas o cultivo continua a crescer.

Isto criou um círculo vicioso. As ervas daninhas ganharam resistência ao herbicida, obrigando os agricultores a pulverizarem cada vez mais. O uso mais intensivo dos herbicidas cria ainda mais "super-ervas daninhas" e um uso ainda mais intensivo dos herbicidas.

Um estudo recente concluiu que entre 1996 e 2011 os agricultores que plantaram com Roundup Ready gastaram mais 24% de herbicida que os agricultores não-OGM no mesmo cultivo.

Se contiuarmos nesta trajetória com o cultivo Roundup Ready assistiremos a um aumento de 25% no uso de herbicida a cada ano que passa.

Esta tendência no uso de pesticidas significou que na última década surgiram nos EUA pelo menos 14 novas espécies de ervas daninhas resistentes ao glifosfato, e mais de metade das quintas norte-americanas estão afetadas por ervas resistentes aos pesticidas.

As empresas de biotecnologia, que vendem quer as sementes quer os herbicidas propuseram enfrentar este problema através da criação de novas variedades de cultivo capazes de suportar herbicidas ainda mais fortes e tóxicos como o 2,4-D e dicamba.

No entanto, prevê-se que caso sejam aprovadas estas novas variedades, isso poderia aumentar até 50% o uso de herbicidas.
 

Esta tendência no uso de pesticidas significou que na última década surgiram nos EUA pelo menos 14 novas espécies de ervas daninhas resistentes ao glifosfato, e mais de metade das quintas norte-americanas estão afetadas por ervas resistentes aos pesticidas.

Danos ambientais
Os estudos comprovaram que o uso crescente de herbicidas nos cultivos com Roundup Ready é altamente destrutivo para o meio ambiente. Por exemplo, o Roundup mata a planta do género Asclepias, que é a fonte essencial de alimento para a emblemática borboleta monarca e constitui uma ameaça para outros insetos importantes como as abelhas.

Também é prejudicial para o solo, matando organismos benéficos que o mantêm saudável e produtivo e fazendo desaparecer micronutrientes essenciais à planta.

Outros tipos de plantas OGM, que foram alteradas para produzir o seu próprio inseticida (por exemplo, as planta de algodão "Bt") também são apontadas como prejudiciais aos insetos benignos como os crisopídeos, a pulga de água Daphnia magna, outros insetos aquáticos e as joaninhas.

A resistência destas plantas aos inseticidas também está a aumentar, criando novas variedades de "superinsetos" e exigindo mais aplicação de pesticidas em diferentes momentos do ciclo de crescimento, por exemplo na semente antes de ser plantada. Apesar disso, novas variedades de milho e soja Bt já foram aprovadas e irão em breve ser plantadas.
 

Uma ameaça para a saúde humana

Os ingredientes OGM estão por todo o lado na nossa cadeia alimentar. Estima-se que 70% dos alimentos processados que se consomem nos EUA sejam produzidos com ingredientes OGM. Se incluirmos os produtos com origem em animais alimentados com OGM, a percentagem aumenta substancialmente.

Os estudos demonstram que as colheitas Rounduop Ready contém muitas vezes mais glifosfatos, e o seu   produto de decomposição tóxica AMPA, do que as colheitas normais.

Foram encontrados vestígios de glifosfato no leite materno e na urina das mulheres norte-americanas, bem como na água que bebem. Os níveis no leite materno são particularmente preocupantes - cerca de 1600 vezes mais do que é permitido na água potável na Europa.

Ao ser passado para os bebés através do leite materno, ou da água usada nos biberões, isso representa um risco inaceitável para a saúde infantil, dado que o glifosfato é apontado como um desregulador hormonal.  Estudos recentes também sugerem que este herbicida é tóxico para o esperma. 

Foram encontrados vestígios de glifosfato no leite materno e na urina das mulheres norte-americanas, bem como na água que bebem. Os níveis no leite materno são particularmente preocupantes - cerca de 1600 vezes mais do que é permitido na água potável na Europa.

Da mesma forma, vestígios da toxina Bt foram encontrados no sangue das mães e dos seus bebés.

Os alimentos OGM não foram sujeitos a testes em humanos antes de serem libertados para a cadeia alimentar e os impactos para a saúde que advêm da circulação e acumulação nos nossos corpos não estão a ser estudados por nenhuma agência governamental, nem pelas empresas que os produzem.

No entanto, os estudos sobre animais alimentados com produtos contendo OGM e/ou glifosfato mostram tendências preocupantes, incluindo danos para os órgãos vitais como o fífado ou os rins, danos para a flora e tecidos intestinais, desregulação do sistema imunitário, anomalias na reprodução e até tumores. 

Estes estudos científicos apontam para problemas potencialmente sérios para a saúde humana que não podiam ser previstos quando o nosso país começou a adotar os OGM, e que continuam a ser ignorados por aqueles que nos deviam proteger.

Em vez disso, os nossos reguladores confiam em estudos ultrapassados e outra informação financiada e fornecida pelas empresas de biotecnologia que, sem surpresa, rejeitam todas as preocupações sobre a saúde.
 

Uma negação da ciência

Esta distorção da ciência empresarial surge em claro contraste com as descobertas dos cientistas independentes.

De facto, em 2013, cerca de 300 cientistas independentes de todo o mundo lançaram um alerta público de que não existe um consenso científico sobre a segurança de consumir alimentos geneticamente modificados, e que os riscos, tal como demonstrado pelas investigações independentes, davam "sérias razões para preocupação".

Não é fácil para cientistas independentes como estes levantarem a voz. Quem o faz já enfrentou obstáculos à publicação dos seus resultados, foi sistematicamente vilipendiado pelos cientistas pró-OGM, viu ser negado o financiamento à sua investigação, e nalguns casos viu o seu emprego e carreira ameaçados. 

Não é fácil para cientistas independentes como estes levantarem a voz. Quem o faz já enfrentou obstáculos à publicação dos seus resultados, foi sistematicamente vilipendiado pelos cientistas pró-OGM, viu ser negado o financiamento à sua investigação, e nalguns casos viu o seu emprego e carreira ameaçados.

Controlo do fornecimento alimentar

Através da nossa experiência pudemos compreender que a modificação genética dos alimentos nunca se deveu à busca do bem público, ou a dar comida a quem tem fome, ou a apoiar os agricultores. Nem tem nada a ver com a escolha do consumidor. Ao invés, trata-se do controlo privado e empresarial do sistema alimentar.

Este controlo estende-se às áreas da vida que afetam profundamente o nosso bem estar do dia a dia, incluinado a segurança alimentar, ciência e democracia. Ele debilita o desenvolvimento de uma agricultura genuinamente sustentável e amiga do ambiente, e impede a criação de uma oferta de alimentos transparente e saudável para todos.

Hoje nos EUA, da semente até ao prato, a produção, distribuição, marketing, testes de segurança e consumo de alimentos, são controlados por uma mão-cheia de empresas, muitas das quais têm interesses comerciais na tecnologia de manipulação genética.

Eles criam os problemas e depois vendem-nos as supostas soluções num ciclo fechado de geração de lucros que não tem igual em qualquer outro tipo de comércio.

Todos precisamos de comer, e é por isso que todos os cidadãos devem fazer um esforço para entender estes assuntos.
 

Chegou a hora de levantar a voz!

Os norteamericanos estão a colher os impactos nocivos desta arriscada e não comprovada teconologia agrícola. Os países da União Europeia devem tomar nota: não existem benefícios no cultivo de OGM que compensem estes impactos. As entidades responsáveis que continuam a ignorar este facto são culpados de negligência grosseira do seu dever.

Nós, abaixo-assinados, partilhamos convosco a nossa experiência e o que aprendemos, para que vocês não cometam os nossos erros.

Apelamos fortemente a que resistam à aprovação dos cultivos geneticamente modificados, a que recusem plantar os cultivos que já foram aprovados, a que rejeitem a importação e/ou venda de alimentos ou rações animais que contenham OGM, e a que levantem a voz contra a influência empresarial sobre as políticas, a regulação e a ciência.

Se o Reino Unido e o resto da Europa se tornarem no novo mercado para os cultivos e alimentos geneticamente modificados, o nosso esforço para rotular e regular os OGM vão tornar-se ainda mais difíceis, senão impossíveis. Se esses esforços fracassarem, as vossas tentativas para manter os OGM fora da Europa irão também fracassar.

No entanto, se trabalharmos juntos, podemos revitalizar o nossos sistema global de alimentação, assegurando um solo saudável, campos saudáveis, comida saudável e pessoas saudáveis.

Texto publicado em ecologist.org. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net

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