Um partido racista e favorável ao Reino Unido abandonar a UE obtém o 23% nas eleições municipais

Como era esperado, os trabalhistas ganharam, os conservadores perderam, mas o grande vencedor das eleições municipais britânicas é um partido favorável ao Reino Unido abandonar a União Europeia

Nigel Farage
photo_camera Nigel Farage

O eleitorado desferiu um duro golpe na coligação conservadora-liberal democrata e, em particular, no primeiro ministro David Cameron, inclinando-se por este partido, marginal até o estouro da crise financeira em 2008, ou pela oposição trabalhista.

A campanha do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) centrou-se nos fantasmas que aparecem quando há sérios problemas económicos: a invasão de estrangeiros e a perda da identidade nacional. O UKIP não se cansou de proclamar aos quatro ventos que, com a atual relação de pertença à União Europeia, cerca de 27 milhões de pessoas iriam invadir as ilhas para se aproveitar da generosa cobertura social britânica.

Estas cifras baseiam-se no facto de que, no dia 1 de janeiro de 2014, Roménia e Bulgária converter-se-ão em membros plenos da União Europeia, com completa liberdade de circulação para os seus cidadãos. Foi só depois da campanha que o líder do UKIP Nigel Farage reconheceu que as duas nações não se iriam mudar na sua totalidade e que – segundo as projeções partidárias baseadas no que ocorreu quando a Polónia ingressou na UE – a invasão seria de aproximadamente 400 mil pessoas. O esclarecimento já não importava mais. Insulares e amedrontados pela mais forte queda no nível de vida das últimas três décadas, muitos britânicos já tinham votado no UKIP.

No contexto da crise atual – duas recessões desde 2010, estagnação e expectativas nulas para este ano -, a eleição de 2.300 conselheiros em 34 municípios, a maioria no Sul (à exceção de Londres) e na zona central da Inglaterra, era considerada como um termómetro da atualidade política. Os trabalhistas conseguiram 29% dos votos, os conservadores 25%, o UKIP 23% e os liberal democratas 14%. Num país dividido entre um norte trabalhista e um sul conservador, salvo pela capital, o líder trabalhista Ed Miliband destacou as vitórias obtidas em Hastings e outras zonas municipais do sul como prova de que pode triunfar nas eleições gerais.

Para frear o UKIP, os conservadores apresentarão uma nova lei de imigração com fortes limitações para o acesso dos estrangeiros à saúde, à moradia e aos serviços sociais

Os conservadores previam uma forte derrota, mas temiam um limite: a perda de 300 conselheiros. O fantasma apareceu com sobras: perderam mais de 320. O primeiro ministro David Cameron indicou que compreendia a frustração dos eleitores: “Entendo as razões pelas quais pessoas que nos apoiavam não nos apoiam agora. Vamos tomar as medidas necessárias para recuperar esse apoio”, disse Cameron.

A estratégia dos conservadores para lidar com o fenómeno UKIP é um endurecimento da política imigratória e europeia. No discurso à rainha da próxima semana, os conservadores apresentarão uma nova lei de imigração com fortes limitações para o acesso dos estrangeiros à saúde, à moradia e aos serviços sociais. Num movimento que deixará de cabelo em pé os seus parceiros europeus, Downing Street (sede do governo britânico) sugeriu que o primeiro ministro não se oporia a que um parlamentar conservador apresente um projeto de lei para a realização de um referendo, em 2017, sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.

Os trabalhistas poderiam apoiar a nova lei anti-imigração de Cameron, com muito poucas objeções

Nos dias que antecederam as eleições, os conservadores qualificaram os integrantes do UKIP como “palhaços, lunáticos e loucos”. O líder do partido Nigel Farrage respondeu assim a esses epítetos: “Chamaram-nos de tudo. O mesmo establishment que arruinou o país. Agora terão que se acostumar ao facto de que somos uma presença permanente na paisagem política”, afirmou ele, posicionando-se como o “outsider”.

A agenda partidária do UKIP tem todos os tópicos da direita dura. O partido independentista propõe um “divórcio amigável” com a União Europeia, adotando tratados especiais como os que têm a Noruega ou a Suíça, um congelamento da imigração, uma taxa de imposto única para toda a sociedade independentemente do nível de rendimento, duplicação do número de prisões e o aumento dos gastos com defesa.

A pergunta é até onde toda esta agenda influirá não só entre os conservadores, mas também junto aos trabalhistas. Dadas as peculiaridades do sistema eleitoral britânico, que não é proporcional – o parlamento não reflete a quantidade de votos de cada partido, mas sim a quantidade de distritos eleitorais que cada partido conquista -, os trabalhistas precisam fincar um pé no Sul para ganhar uma maioria a nível nacional.

Nas últimas semanas, adotaram uma agenda mais dura em questões de imigração e prevê-se que apoiarão com apenas algumas objeções o projeto da nova lei: a posição do trabalhismo sobre esse tema entre 1997 e 2010 é apontada como um fator de sua derrota nas últimas eleições. Como em outros países europeus, os ventos da crise estão a preparar o caminho para uma agenda de direita.

Artigo tirado de Carta Maior.

 

 

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