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Crónica desde o Donbass: "Todos temem pela sua vida"

Durante as últimas semanas, aumentou a intensidade dos ataques contra a cidade de Donetsk. À medida que as forças pró-russas fazem recuar as tropas ucranianas no Donbass, a Ucrânia recorre às armas enviadas pelos países da NATO para atacar várias cidades da região. Sem capacidade para suster o controlo do território, o recurso à artilharia é uma medida possível, embora pouco eficaz.
Em um só dia podem caír mais de 400 projectéis em Donetsk. (Foto: Bruno Carvalho).
photo_camera Em um só dia podem caír mais de 400 projectéis em Donetsk. (Foto: Bruno Carvalho).

As rodas do velho autocarro devoram os cerca de 1200 quilómetros que separam Moscovo de Donetsk. São cerca de 20 horas para percorrer uma distância que antes de Fevereiro se fazia em pouco tempo através de uma ligação aérea entre a capital russa e Rostov, já bem perto de Donbass. A camioneta está lotada e parece surpreendente que toda esta gente esteja a caminho de uma região em guerra.

A meio da viagem são muitos os que levam a mão ao telemóvel. Começam a chegar imagens de fortes bombardeamentos no nosso destino. Uma escola em escombros, vários prédios de habitação atingidos, supermercados em chamas e automóveis destruídos. O que nos espera em Donetsk é uma cidade a 10 quilómetros da linha da frente militarmente assediada de 
forma constante. 

Na verdade, é uma roleta russa. Primeiro ouve-se um assobio, depois a explosão. Ninguém sabe onde nem quando podem cair os projéteis. Nas últimas semanas, a artilharia pesada ucraniana fez de Donetsk um alvo indiscriminado. Em oito anos de guerra, nunca a maior cidade de Donbass esteve sujeita a tal nível de violência. Desde Fevereiro, a intensidade dos ataques aumentou sobretudo nos bairros periféricos mas Junho fica marcado a sangue na história da capital da auto-proclamada República Popular de Donetsk.

Ninguém consegue perceber muito bem porque é que a Ucrânia atinge praticamente apenas alvos civis. O cansaço toma conta de quem aqui vive. Já não há lugares seguros e isso vê-se na cara das pessoas. Os rostos fechados e o passo apressado marcam a cidade, mesmo no centro. Na terça-feira, uma maternidade foi atingida perante a estupefação geral.

Só na sexta-feira, em poucas horas, caíram mais de 400 projécteis de diferentes calibres sobre a cidade. Com as ruas praticamente desertas, os poucos que se atreviam faziam-no a correr. Nesse mesmo dia, um supermercado e um autocarro foram atingidos. Sete civis mortos e dezenas de feridos foi o trágico resultado em apenas um único dia de ataques a Donetsk.

Temer pela vida

Alexander tem 59 anos e trabalhou 26 anos dentro da mina de carvão Zasyadko em Donetsk. Viveu na pele aquilo que muitos trabalhadores desta cidade experienciaram ao longo da vida. A indústria mineira é parte importante da economia da região e muitos dos mineiros estão agora a combater na linha da frente. No bairro de Oktyabrsky, alvo constante da artilharia ucraniana, Alexander interrompe o que estava a dizer. Ouve-se uma explosão. “Foi um disparo de um projéctil de calibre 120”, afirma. “Isto é normal por aqui.

O exército ucraniano dispara para aqui, para as casas. Os projéteis atingem este hospital aqui ao lado várias vezes. Embora não haja posições da milícia [forças de Donetsk] nas proximidades. As posições do exército estão a meio quilómetro”.

Caminha pela estrada que vai dar ao aeroporto da cidade, completamente destruído durante os combates entre 2014 e 2015, e entre vários destroços diz que as forças ucranianas bombardeiam áreas civis “por vingança”. Para Alexander, “estão derrotadas” e, por isso, não deviam usar armas pesadas. “É-me difícil compreender moralmente os seus motivos. Querem matar mais civis”.

Olha para uma ponte destruída e explica que foi detonada em 2015 pelos separatistas para evitar o avanço das tropas ucranianas sobre a cidade. São muitas as histórias que traz na pele calejada de tanta guerra.

Sobre o medo de viver num bairro permanentemente na linha de fogo, assume que é “assustador” e explica que “todos temem pela sua vida”, mas que “as pessoas vivem e trabalham aqui”. Segundo este ex-mineiro, é difícil dizer o que se podem fazer os líderes políticos para travar esta guerra. “É pouco provável que eles sejam capazes de negociar.

O lado ucraniano não é capaz de o fazer. Penso que haverá guerra até que um lado seja derrotado ou até que uma grande parte da Ucrânia seja libertada pelo exército russo”, opina.

Como muitos outros habitantes de Donetsk, confessa que ficou aliviado quando soube que as forças russas tinham entrado na Ucrânia. “Senti que finalmente acabaria o fim deste pesadelo, o horror, o genocídio. São oito anos de vida sob constante bombardeamento. Ninguém se habitua a isso”.

Questionado sobre qual seria a melhor solução para Donetsk, considera que o melhor caminho é a integração na Rússia. “Com esse grande país, com a nossa pátria histórica. Nós também somos russos. Temos esta língua. A língua, os costumes, a história. Somos o povo russo e Donbass 
sente-se russo”.

Bruno Amaral de Carvalho, jornalista

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