INTERNACIONAL

Portugal vai votar sob o signo da Troika

ANÁLISE

Portugal vai votar sob o signo da Troika

Este domingo 4 de Outubro realizam-se eleições legislativas em Portugal. Ganhar a direita ganhar o PS, o que fica claro é que as políticas não mudarão no essencial e que o memorando acordado com a UE continuará a se aplicar: o poder real está nas mãos da Troika. A esquerda real -a CDU que lidera o PCP e o Bloco- têm sérias hipóteses de aumentar a sua representação, mas não de alcançar o poder político. Publicamos a seguir uma análise sobre o processo eleitoral do jornalista português e colaborador de Sermos Galiza Bruno Carvalho.

Arruda Lisboa. Eleições Portugal 2015
photo_camera Arruada em Lisboa. Foto: CDU

O país em que se vão realizar as eleições o domingo 4 de Outubro está muito distante daquele em que há quatro anos se coligaram o PSD e o CDS-PP para formar governo. A tragédia social que se abateu sobre Portugal vai ficar para a história recente como o maior retrocesso desde que o fascismo foi derrotado. Para muitos, a crise financeira abriu aos representantes políticos dos bancos e dos grandes grupos económicos a oportunidade de assestarem um ajuste de contas com os direitos que todavia restavam da revolução de 1974. A braços com uma dívida impagável, os mesmos partidos que patrocinaram o ingresso de Portugal na CEE desenrolaram desta vez a passadeira vermelha ao FMI, ao BCE e à Comissão Europeia. A introdução da receita neoliberal da troika ficou à responsabilidade de Vítor Gaspar, ministro das Finanças e discípulo de Milton Friedman. A resposta das organizações de esquerda como o PCP e o BE não se fez esperar. Do que se tratava era de sacrificar os trabalhadores para pagar as dívidas da banca.

No espaço de quatro anos, fizeram-se mais greves gerais do que nas quatro décadas anteriores 

Em conjunto com as organizações sindicais, encabeçadas pela CGTP, surgiram movimentos sociais que protagonizaram algumas das maiores manifestações desde o fim do período revolucionário. No espaço de quatro anos, fizeram-se mais greves gerais do que nas quatro décadas anteriores. Ano trás ano, o governo perdeu legitimidade social e muitas das suas medidas embateram com o Tribunal Constitucional, órgão encarregue de avaliar se as leis aprovadas na Assembleia da República estão de acordo com a Constituição da República Portuguesa. O retrato da tragédia é claro: emigraram quase 500 mil portugueses de um país que não tem mais do que 10 milhões de habitantes. Este valor é ainda mais chocante porque supera o número de pessoas que emigraram na última década do fascismo. Os telejornais encheram-se de notícias de suicídios. O desemprego atingiu níveis galopantes e as cidades encheram-se de sem-abrigo. Sem perspectivas de futuro, boa parte dos jovens continua em casa dos pais e a taxa de natalidade portuguesa é hoje a mais baixa do mundo. Empresas públicas como os correios CTT, a companhia aérea TAP, parte da companhia ferroviária CP e os transportes públicos de Lisboa foram privatizados total ou parcialmente.

Os partidos do memorando

Os partidos do arco da governação – como chamam em Portugal a PS, PSD e CDS-PP – sabem disso. É a razão por que boa parte da campanha eleitoral se tem baseado nas acusações sobre quem é que trouxe a troika. António Costa, líder do PS, e Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro e líder da coligação entre o PSD e CDS-PP que recebe o nome Portugal à Frente, acusam-se mutuamente porque sabem que a esmagadora maioria dos portugueses odeia a troika. O facto é que os três partidos assinaram o memorando com a troika e, ainda que tenha sido o governo PSD/CDS-PP a implementá-lo, o PS pouca ou nenhuma oposição fez. Este é hoje um partido capturado pelo seu comportamento e que tenta descolar-se com dificuldade desse passado.

Dizia Victor Jara que é difícil encontrar na sombra claridade quando o sol que nos ilumina descolora a verdade. Mas às vezes há afirmações que são verdades como punhos. Há poucos dias, um dos principais banqueiros, Fernando Ulrich, declarava aos jornais que para os empresários portugueses era indiferente que ganhasse a coligação Portugal à Frente ou o PS. Esta declaração de interesses é bem esclarecedora vinda de alguém que declarou que se os sem-abrigo conseguem sobreviver então os portugueses também conseguiriam sobreviver muito bem à austeridade imposta pela troika.

 Prevê-se que a CDU suba e recupere para valores de antes do fim da URSS e que o BE possa ter uma ligeira recuperação apesar da perda de militantes para novas organizações

A verdade é que esta campanha eleitoral, dadas as circunstâncias em que se encontra o país, se revelou atípica. Desde logo, a extraordinária campanha mediática de bipolarização contribuindo para a ideia de que só estão duas candidaturas em disputa pelo governo. Depois, os sucessivos casos de insultos, agressões e protestos contra quase todas as acções de campanha dos candidatos de Portugal à Frente. E, finalmente, nas duas últimas semanas, a novidade das sondagens diárias que chegaram a ser anedota quando o total de uma delas dava 111,9%.

O que também revelam estas sondagens, independentemente do seu grau de fiabilidade, é que uma grande parte dos eleitores prefere desligar-se da política caindo no desânimo e na resignação. Outra revelação é a de que, apesar de continuarem na frente, os partidos que até hoje governaram Portugal podem obter os piores resultados da sua história. Prevê-se que a CDU suba e recupere para valores de antes do fim da URSS e que o BE possa ter uma ligeira recuperação apesar da perda de militantes para novas organizações. É o caso do recém-criado Livre que pode eleger o ex-eurodeputado Rui Tavares. Também o actual eurodeputado populista Marinho e Pinto deve ser eleito pelo seu novo partido PDR.

Um dos principais banqueiros, Fernando Ulrich, declarava aos jornais que para os empresários portugueses era indiferente que ganhasse a coligação Portugal à Frente ou o PS

Apesar da incerteza sobre quem sairá vencedor destas eleições, é também possível que se tarde em formar governo. Sem maiorias absolutas à vista, a coligação Portugal à Frente só poderia governar com a conivência do PS. À esquerda, a única candidatura com deputados suficientes para dar maioria ao PS prevê-se que seja a CDU que já afirmou só apoiar quem romper com a austeridade e fizer uma política ao serviço dos trabalhadores e do povo. Em qualquer dos resultados, pode temer-se um governo de bloco central em que partidos que sempre fingiram parecer diferentes se vejam obrigados a governar em conjunto. Uma solução que certamente agradaria aos grandes grupos económicos e financeiros mas que teria consequências imprevisíveis a médio prazo. Sem alternativa à vista, é provável que Portugal continue sob o signo da troika e que a oposição se dê mais nas ruas que no parlamento.

Este artigo viu a luz a quinta feira 1 de Outubro no número 165 do semanario Sermos Galiza, disponíbel nos pontos de venda habituais e na nosa loxa.

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