A mobilização parcial em Rússia tem carácter imediato e será para todos os que têm experiência militar

Toda a gente me fala disto. Há a mãe que vai acender velas na igreja para pedir a Deus que proteja os seus filhos, há o marido que abraça a mulher mesmo que seja só para ir ao supermercado e voltar dali a pouco, há adolescentes que adiam beijos porque vivendo na mesma cidade não se atrevem a encontrar-se na rua. É uma vida adiada que já acontecia desde 2014 e que agora parece não ter fim. Há crianças que nunca souberam o que é viver em paz, há adultos que acham que isto vai ser assim a vida toda. Não têm qualquer esperança no Ocidente, apenas raiva. 
O presidente ruso, Vladímir Putin. (Foto: Kremlin)
photo_camera O presidente ruso, Vladímir Putin. (Foto: Kremlin)

De forma inesperada, as autoridades das duas repúblicas em Lugansk e em Donetsk, na região do Donbass, assim como das regiões de Kherson e Zaporozhye, anunciaram a realização de referendos para a adesão destes territórios à Federação Russa de 23 a 27 de Setembro. Durante vários meses, esta opção esteve em cima da mesa mas as datas foram sendo sucessivamente adiadas e esperava-se que estas consultas fossem realizadas depois do controlo militar destes territórios, chegando a falar-se de 4 de Novembro, Dia da Unidade na Rússia.

De repente tudo se precipitou. A tão somente três dias do referendo, oficializou-se a pretensão de consultar as populações sobre uma eventual adesão à vizinha Rússia, uma decisão rejeitada por parte dos países ocidentais. O anúncio apressado parece denotar que ninguém está demasiado preocupado com o reconhecimento internacional desta ida às urnas. 

Eram muitas as vozes que apontavam que a razão para este momento e esta forma se prendiam sobretudo em possíveis mudanças no plano militar. Ou seja, de fazer destes territórios parte da Rússia para do ponto de vista político poder justificar uma maior mobilização de soldados e, simultaneamente, integrar as milícias do Donbass no corpo regular do exército russo. 

População civil ontem en Mariupol, cidade portuária de Donetsk, um dos territórios onde está convocado o referendo de união à Russia. (Foto: Bruno Amaral de Carvalho)
População civil ontem en Mariupol, cidade portuária de Donetsk, um dos territórios onde está convocado o referendo de união à Russia. (Foto: Bruno Amaral de Carvalho)

A declaração de Vladimir Putin, presidente da Federação Russa, esta quarta-feira, veio confirmar essa hipótese. O anúncio de uma mobilização parcial para todos os que têm experiência militar tem carácter imediato. Segundo o ministro russo da Defesa, Shoigu, serão 300 mil reservistas que vão receber treino, dos quais estão excluídos os estudantes. Comentando o número de baixas, a Ucrânia terá perdido metade do seu exército. Cerca de 61 mil mortos e 49 mil feridos, algo que Kiev contesta.

O Kremlin antecipa assim uma nova fase da guerra com um pedido à indústria militar para que acelere a produção de armas.

Entre os inúmeros argumentos apresentados, Vladimir Putin referiu os permanentes ataques ucranianos contra civis e as armas sofisticadas entregues pela NATO. Falou dos estrangeiros a combater na Ucrânia e dos instrutores do Ocidente. E deixou um alerta: a Rússia tem armas mais modernas que a aliança atlântica.

Sensação de abandono

O histórico eleitoral desde 1991 mostra que estas regiões, sobretudo Donetsk e Lugansk, votaram praticamente em opções pró-russas. A população do Donbass sente-se abandonada pelo Ocidente desde que começou a guerra em 2014 e depois do agravamento dos bombardeamentos da artilharia ucraniana sobre a cidade de Donetsk, entre outras, são muitos os que exigem um maior empenho militar da Rússia. Depois do banho de sangue de 19 de Setembro, em que 13 civis morreram num único ataque da Ucrânia, cresce em Donetsk um certo sentimento de impotência. Para muita gente, este referendo pode ser uma janela para a resolução do conflito.

Serão 300.000 os reservistas que vão receber treino, segundo o ministério russo 

No princípio desta intervenção militar, em Fevereiro, havia quem gozasse com o conceito de operação especial como se fosse uma forma de a Rússia evitar a palavra guerra ou invasão. Mas parece cada vez mais claro que é mesmo assim que Moscovo olha para o que está a fazer na Ucrânia. 

Pelo número de tropas e pelo tipo de armamento usado, a Rússia está longe de usar toda a sua força. Aqui há quem questione porque é que Moscovo não destruiu as linhas férreas que continuam a distribuir soldados ucranianos e estrangeiros e armas por todo o território ou porque é que até há bem pouco tempo continuava a vender gás à própria Ucrânia ou a distribuir electricidade, de forma intermitente, através da central nuclear de Energodar. Em muitas zonas da linha da frente, as forças ucranianas estão em maior número, mais bem equipadas e com melhores armas. A supremacia russa no ar é evidente e isso faz toda a diferença mas não chega para inverter a capacidade ucraniana, com o apoio da NATO, de prolongar esta guerra no tempo.

Em cidades profundamente pró-russas como Donetsk, Gorlovka e Lugansk, a Rússia é a esperança mas a esperança como o fogo precisa de oxigénio. Veremos o que traz a tempestade que se aproxima.

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