CULTURA

Raquel Lima: "Sinto que a aproximação estratégica parte mais dos galegos do que dos portugueses"

Poeta, performer e arte-educadora

Raquel Lima: "Sinto que a aproximação estratégica parte mais dos galegos do que dos portugueses"

Raquel Lima (1983) é lisboeta, mas tem nas veias sangue angolano, santomense, senegalês e brasileiro. Poeta, performer e arte-educadora, percorreu mais duma dezena de países na Europa, América do Sul e África com a sua poesia oral. Após ganhar o aRi[t]mar, volve á Galiza para participar amanhã no Poemagosto (Allariz).

Raquel Lima recita um poema de Carlos da Aira no aRi[t]mar [Carlos Mendes Pereira].
photo_camera Raquel Lima recita um poema de Carlos da Aira no aRi[t]mar [Carlos Mendes Pereira].

—Botou uma década a fazer poesia, mas não escrita. Que a atrai da oralidade?

A oralidade chegou de forma muito natural e sempre me agradaram muito as possibilidades de manipulação de ritmos, silêncios, gestos, hesitações, respiração, frequências, interação... É algo que não conseguimos controlar com a poesia escrita duma forma corporal e orgânica. Mais do que a oralidade, interessa-me a oratura como dimensão filosófica e ontológica, e uma poética do corpo presente.

—Como está o panorama do slam em Portugal?

O slam continua ativo e este ano a edição do PortugalSLAM! Festival Internacional de Poesia e Performance será em Coimbra, na cidade onde vivo, e poderei participar numa mesa. Existe uma nova geração a dinamizar imenso o poetry slam com energia renovada e a fazer um trabalho incrível de memorialização e arquivo do que tem sido feito em Portugal na área, como as entrevistas conduzidas pela slammer brasileira residente em Portugal Maria Giulia Pinheiro.

—E a escena da poesia portuguesa mais em geral?

Acho que a poesia contemporânea portuguesa se encontra num momento muito rico na sua versatilidade, diversidade de estilos, géneros e vozes. Estou mais atenta à escrita de mulheres e tem sido um enorme prazer acompanhar poetas/escritoras como a Gisela Casimiro, a Matilde Campilho, a Judite Canha Fernandes, entre outras.

—Que representou ganhar o Prémio aRi[t]mar na categoria de poesia e participar na gala?

É muito gratificante, tratando-se de um prémio votado pelo público. Eu acredito que representa o resultado duma relação que se foi fortalecendo com a Galiza desde a minha participação em diferentes eventos em 2018, nomeadamente o festival Alguén que Respira no Teatro Principal de Santiago de Compostela, no evento Os Três Tempos da Poesia, Música, Pintura, Baile no Verbum Museum em Vigo, e, finalmente o Festival Feminista 85C também em Vigo.

"Acredito que nós, aqui em Portugal, teríamos muito a ganhar se estabelecêssemos uma relação recíproca no sentido de diversificar a literatura inteligível para ambas as partes"

Penso que a minha nomeação parte dessa relação de familiaridade que permitiu que a minha poesia fosse ouvida e lida por um público galego sempre muito interessado e acolhedor. E participar na gala, ainda mais no âmbito do festival Maré, gerou a possibilidade de conhecer artistas incríveis como António Zambujo e Miguel Araújo, o angolano Toty Sa’Med, a brasileira LaBaq e as galegas Ugia Pedreira, Sabela, Uxía...

—Acho que a poesia da Galiza e Portugal não são muito conhecidas entre elas para o público geral. Qual é motivo, com a proximidade linguística que há? Ou considera que sim circulam abondo?

Sinto que a aproximação estratégica parte mais da iniciativa dos galegos do que dos portugueses e vejo isso à luz das tensões políticas e linguísticas que atravessam a história galega duma forma muito atual, e que resulta numa intenção clara de "integração" de outros territórios que partilham uma raiz linguística comum. Acredito que nós, aqui em Portugal, teríamos muito a ganhar se estabelecêssemos uma relação recíproca no sentido de diversificar a literatura inteligível para ambas as partes.

Oratura e escravatura em São Tomé e Príncipe

Raquel Lima é, além de poeta, doutoranda no programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global da Universidade de Coimbra. A sua linha de investigação está focada na oratura e a escravatura em São Tomé e Príncipe, mais concretamente situada no episódio da Revolta de Escravizados do século XVI.

"Procura propor uma reconfiguração dessa história baseada nas anedotas, adivinhas, provérbios, contos, lendas, mitos e outras manifestações e rituais quotidianos que estiveram (e estão) na base de uma performance que introduz outro alcance sobre esse momento histórico, à luz das tensões coloniais que continuam desde a época até aos dias de hoje", explica a investigadora.

O de oratura é um conceito cunhado pelo linguísta ugandês Pio Zirimu, fronte a outros como "literatura folclórica", "literatura oral" ou "literatura primitiva"

O de oratura é um conceito cunhado pelo linguísta ugandês Pio Zirimu, fronte a outros como "literatura folclórica", "literatura oral" ou "literatura primitiva", para referir a expressão oral das produções criativas da mente humana.

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