martes 21.01.2020
PHILIP KRUMMRICH, TRADUTOR DE HERBA MOURA E OSTRáCIA

"O mundo que fala inglês deve conhecer as obras de Teresa Moure porque ela tem um talento muito especial"

Norte-americano de Kentucky, professor de espanhol durante 4 décadas, catedrático de Literatura Comparada na Morehead State University, Philip Krummrich é o tradutor ao inglês de dois romances de Teresa Moure: o já clásico Herba Moura e o recente Ostrácia, o livro em que se recria a relação romántica da dirigente bolchevique Inessa Armand e o líder da Revolução russa, Vladimir Ilich Ulianov.

Philip Krummrich
Philip Krummrich

O primeiro contacto de Krummrich com Moure foi internético após a leitura apaixonada de Herba Moura. Estes dias, aproveitando um semestre sabático, o professor -experiente tradutor da literatura renascentista- decidiu visitar Galiza para conhecer em pessoa a escritora galega e, de passo, para se mergulhar numa cidade, Compostela, que não duvida em qualificar de "fascinante".

Krummrich fala um português praticamente perfeito, com um muito doce sotaque brasileiro. Combino com ele um café no centro da capital da Galiza. Tem tanta paixão pela literatura de Moure que, para além de traduzir seus romances, vai-se envolver pessoalmente na procura duma editora norte-americana para publicar os textos.

-Como nasceu em você o interesse pela obra de Teresa Moure?

-Bom, eu sempre gostei da literatura da península em geral. Tinha muito interesse nas línguas regionais...catalã, naturalmente galego, eu queria ensinar-me a ler o galego, li algúns livros, Rosalía de Castro..., mais não tinha muitos libros, é difícil achá-los em galego. Um día tive a ideia de investigar quais eram os nomes mais interessantes da literatura galega contemporânea. Procurei na Internet e achei Teresa, a descrição de Herba Moura, uma descrição muito interessante, pedi à biblioteca, li o livro, gostei muito, achei o endereço electrónico dela, escrevi-lhe, e disse-lhe: você acharia bom se eu fizesse a tradução?, ela disse-me que sim, assim que comecei com grande entusiasmo a fazer o trabalho. Depois soube por ela da existência de Ostrácia, o seu novo romance, enviou-mo por correio, gostei também imenso e comecei a traduzi-lo.

Eu estou de semestre sabático, assim que tinha oportunidade de vir a Santiago. Achei que era boa ideia visitar Santiago e consultar Teresa para resolver as dúvidas que tinha sobre a tradução. O trabalho está completo com Herba Moura e já levo traduzido dois terços de Ostrácia. O labor de Herba Moura está feito, agora temos por diante acharmos editora [para o publicar nos EUA]. Acho que a tradução de Ostrácia estará lista a fins de Abril, mais ou menos.

-Esta relação de tradutor e autora é comum -este consultar as dúvidas-, é frequente quando traduz um livro?

-Não sei, não sei. Geralmente as minhas traduções são mortas [ri]. Não tenho a vantagem de poder consultar, mais não tenho problemas tampouco. Mais que nada, eu trabalho na literatura medieval renascentista. É um pouco novo para mim traduzir uma autora da literatura contemporânea viva. Em todo caso, a coisa realmente interessante da tradução literária é que é totalmente voluntária, eu não vou ganhar um cêntimo co meu trabalho, não tenho essa pressão económica, eu posso escolher as obras...

-É por puro prazer

-Exactamente. Para mim é muito mais interessante traduzir do que, por exemplo, escrever artigos. Eu já chego ao fim da minha carreira, eu não posso esperar promoção, assim que eu posso fazer o que gosto.

Philip Krummrich 2-Achas que Ostrácia é, a respeito de Herba Moura, um passo adiante na literatura de Teresa Moure?

-Eu diria uma coisa que já diz a Teresa. O que gosto de Teresa é que ela jamais escreve o mesmo romance duas vezes. Cada romance é muito diferente do anterior. Então eu não acho possível comparar. Ela precisava escrever Herba Moura quando escreveu Herba Moura e depois ela precisava escrever Ostrácia quando escreveu Ostrácia. São dois romances totalmente diferentes. Há alguns ecos de Herba Moura na Ostrácia, mas se entendemos bem são dois romances independentes, totalmente separados.

E a coisa interessante -eu sou muito ignorante sobre isto-, a coisa interessante é que eu perguntei a Teresa "por que é que você escreveu este romance em português quando escrevias antes em galego?" e ela me explicou que na Galiza há duas tendências, uma a da reintegração do galego e o português e outra a de pensar o galego como uma língua distinta. Eu simplesmente agora compreendo melhor esse afã de Teresa, essa ideia de Teresa, essa resolução de escrever em português...

O que gosto de Teresa é que ela jamais escreve o mesmo romance duas vezes. Cada romance é muito diferente do anterior

-Que receção achas pode ter no público leitor norte-americano uma obra, Ostrácia, que toca temas atinentes ao marxismo?

-Não sei, vai ser interessante. Acho que agora a hostilidade contra o marxismo é menos. O medo tem diminuído muito. Antes, há 30 anos, todos tínhamos muito medo do comunismo. Oh!!, são o inimigo, vão matar-nos!!! [ri]. Mas agora, depois das transições que temos visto, acho que os norte-americanos vão perdendo essa reação automática de hostilidade contra o marxismo e acho que seria possível que tivessem interesse num romance que tem que ver com o Lenine, embora fala de muitas outras coisas. Vamos ver. Eu noto que as editoriais norte-americanas publicam já muitos romances de todo o mundo e não sei com que critérios decidem quais publicam e quais não, mas eu espero que um critério importante seja que sejam bons romances, nesse caso vão publicar seguro, porque Ostrácia é uma obra mestra, brilhante, não digo se Ostrácia é melhor do que Herba Moura, não entro nisso, mas eu acredito na importância desses dois romances, sinceramente eu acho que o mundo que fala inglês deve conhecer a obra de Teresa, porque ela tem um talento muito especial.

-Há uma impressão que não sei se é um prejuízo de que as e os leitores dos EUA não têm muito interesse por obras estrangeiras...

-Relativamente falando, os norte-americanos lêem menos a literatura do mundo do que por exemplo os ingleses, os galegos ou os franceses. Mas isso vai mudando, ou seja, se agora eu entro numa livraria norte-americana eu vejo traduções de romances, de poesia, de muitos países. Eu acho que aos poucos nos vamos abrindo um pouco mais ao resto do mundo. Eu gosto de ser norte-americano, mas há algumas coisas do meu país que gostaria de mudar, entre outras essa ideia de que não precisamos do resto do mundo. Si precisamos! Com 40 anos de ser professor de espanhol, o meu problema é convencer os estudantes de que o espanhol também existe. Eles acham que é um jogo que fazemos na aula, na sala de classe. Porque se uma pessoa mora nos EUA não costuma ter contato com o resto do mundo. Onde eu moro tens de viajar dois ou três dias para chegar a outro país.

Acho que, agora nos EUA, a hostilidade contra o marxismo é menos. O medo tem diminuído muito

-Em Ostrácia há bastante experimentação técnica, é um romance nesse sentido bastante inovador, vanguardista. Isso coloca maiores dificuldades à hora de traduzir?

-[Medita muito a resposta] Vou dizer que presta ainda mais interesse ao processo de tradução. Eu tenho estudado literatura toda a minha vida. Então eu não tenho medo às inovações, mas...não vou dizer que traduzir Ostrácia seja uma coisa fácil, é difícil, mas vale a pena e não é impossível, especialmente porque a Teresa é muito amável respondendo as minhas perguntas.

-Do ponto de vista temático, uma das coisas que mais me interessou de Ostrácia é essa ideia do amor como força motriz não só das relações entre as pessoas, mas também como força motriz da história. E essa especial insinuação de que Lenine talvez morreu de amor, ao desaparecer Inessa Armand. Você faz também esta interpretação do romance?

-Os tradutores não se metem nas interpretações. Sobre isto fala com a Teresa [ri, realmente rimos]. Não, a sério, é importante não confundir os papeis. Eu tenho sido professor, eu tenho escrito..., mas eu o que faço aqui é traduzir e os meus comentários vão ser só sobre a tradução, eu não digo a ninguém como tem de interpretar o romance, melhor que cada quem o leia.

-Conhecias o personagem de Inessa Armand, personagem histórica que Ostrácia resgata?

-Não, nada. Eu sou muito ignorante geralmente em relação à revolução russa, à história do socialismo, eu não sabia muito disso, eu sabia quem era Lenine, obviamente, mas os detalhes eu não sabia...e inclusive eu não sei até que ponto o que li no romance é histórico e até que ponto é inventado, e não me importa, não me importa com isso, a minha tarefa é traduzir, depois para críticos e escritores fica a interpretação.

-Ainda que não é muito pergunta de tradutor, tampouco seria de escritor, mas, não vês em Ostrácia matéria para um filme?

-Uff, acho que poderiam fazer um filme muito interessante, que talvez seria totalmente diferente do livro. Não sei se iria a ver. Teriam de simplificar tanto...eu teria medo de que o filme se focasse só sobre os aspectos sexuais e omitisse quase todo o demais.

-Também um editor poderia ter a tentação de subtitular o romance como A Amante de Lenine.

-Sim, claro, porque pensaria que assim venderia mais exemplares. Mas eu como tradutor, se tenho a tentação de mudar alguma coisa, eu sempre vou consultar com Teresa. Ao fim ela como autora é quem decide.

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