venres 05/03/21
LIVRO DE ESTREIA DA POETA MOÇAMBICANA HIRONDINA JOSHUA

"Os Ângulos da Casa" ou o dizer incomum das coisas

Visitamos a Casa de Hirondina Joshua. Medimos os seus Ângulos com Mia Couto e Jaime Munguambe Júnior. Assomamos à janela da mão desta moçambicana que olha o mundo desde a poesia.

casa
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Com Hirondina Joshua já há tempo falamos no Sermos Galiza. Esta mulher “magra, quase sem corpo. Tímida, quase sem voz” como a tem descrito Mia Couto, mas com toda a energia da palavra, lança um livro, o seu primeiro livro, após ter publicado em jornais e revistas.

1. O pudor e o poder da escrita

Não escrevo para ser vista, escrevo para não ser vista.
O desassossego me embrulha.
Mas, não será a escrita a pior nudez?
Estou nua todos os dias que a grafia me busca.
A Lua entre os dedos, a maçã numa alusão indescritível.
Há muito pudor na escrita.
Há muito poder na escrita.
A pele fresca canta e se impõe a uma tal leveza superior inigualável.
A abundância da supremacia.
No osso que sai à carne para junto da pupila engrandecer o século.
A veia apagada, essencial faz o seu trabalho guindástico no peso do músculo.
Estou nua sempre que o verso me chega.
Sou nua sempre que o verbo me cega.
A luz. O despropósito avança ao domínio de qualquer coisa vestida e arrebatadora.
A nudez é nua. Para os que têm olhos. A nudez é vaidosa para os que querem ver mais do que podem ver.
E a escrita? Deambula de quarto em quarto na casa do agente, a palavra vaga estreita e delgada no caminho da descoberta.
Há pudor e há poder.
– E agora acredito: “quem fabrica um peixe, fabrica duas ondas…

2. Desnudar o vazio falando a língua dos Céus

Mia Couto, no prefácio preparado para Os Ângulos da Casa introduz-nos na poética de Hirondina Joshua.

“Hirondina Joshua não surgia agora, com este livro. Foi surgindo de forma subtil e firme com a sua palavra delicada e iluminada. Foi surgindo como uma claridade lunar até se impor não já como uma promessa futura mas como uma voz presente e segura no panorama das letras moçambicanas. Poesia de natureza pessoalíssima, com tonalidades e ousadias invulgares que parecem querer, como ela mesmo anuncia, desnudar o vazio

O que Hirondina faz é afiar a palavra na pedra, aguçar o murmúrio que, na aparência doce, redesenha com uma lâmina o seu mundo interior.

Estes poemas convidam-nos a um passeio pelas ruas que às vezes são nossas, uma visita a um quotidiano que sendo familiar nos é estranho porque nele se fala um idioma a que Hirondina chama “a língua dos céus”.

Visitemos pois os ângulos desta casa que ela construi com o redondo da palavra. Este é um livro merecido e merecedor da poesia que, sendo de estreia, é já de uma autora que encontrou a sua própria voz. E essa conquista – o tomar posse de uma linguagem única e inimitável - é o que qualquer autor busca durante toda a sua vida. Hirondina chegou. E a poesia já estava nela”, acrescenta Mia Couto.

3.- Adentrar no mundo pela primeira vez

Com Jaime Munguambe Júnior entramos na Casa e medimos seus Ângulos.

“A História de qualquer literatura não é concreta como podemos nalgum momento cogitar, é um corpus abstracto e quimérico, isto porque está em frequente engenharia e transmutação histórica. Marcha o tempo em todos os lugares do mundo e em todas as literaturas. Nesse contexto, novos paradigmas se solidificam com a aparição de novas vozes literárias. Vozes vindas das casas interiores do corpo humano que também é uma casa. 

Tais vozes literárias surgem na pluralidade das literaturas mundiais e expõem a essência humana através da encenação da palavra no palco dos nossos itinerários e no território do nosso pensamento. São essas vozes que fazem da literatura uma verdadeira relíquia de virtudes. Através do teatro da palavra, o que peculiarmente podemos designar por poesia; este minério que se extrai no sobsolo da imaginação.

No marchar do tempo literário em Moçambique, há quem nos seduz com o seu trabalho artístico, dai se torna difícil ficarmos grudados à indiferença. 

O livro Os Ângulos da Casa de Hirondina Joshua é um arquétipo desse género que nos alicia e nos puxa inevitavelmente ao colo da satisfação humana, é uma obra que nos alimenta a bulimia do espirito que é vítima das vicissitudes da vida, dos vários momentos que visitam os seres inseridos em vários contextos sociais.

A obra da Hirondina Joshua é universal, tem traços do cosmopolitismo, há um sentimento de pertence a uma nação - o mundo. Testemunha o poema com doses de uma filosofia:

Encheram as mãos e as cabeças.
Cantaram as canções dos pássaros.
Brilharam.
Encheram espaços.
Perseguiram os mais fortes.
Distraíram os preguiçosos.
Sob as canções dos pássaros inventaram outras.
As mãos sanguinárias eram limpas. 
Esperavam por alguém com olho infestado e uma alma branca.

A respiração poética acima delineada faz parte de um universo de textos que compõem Os Ângulos da Casa, obra da Hirondina Joshua esta que nos traz a sedução da linguagem em delírio, com um dizer incomum das coisas por nós conhecidas, tais coisas metamorfoseadas porque lhes foram emprestadas a magia da vida com o talento da imaginação. 

noite

Ler Os Ângulos da Casa é como que adentrar num mundo pela primeira vez e se surpreender com a existência das coisas, ficamos perante um texto-mundo e através dele aprendemos a viver doutra forma e juramos que a vida cinzenta da humanidade dos nossos tempos pode ser de uma outra cor, mais causticante, mais viva e mais próspera para todos nós”

4.- O poema único que escrevemos no sangue

Mas, finalmente, o que diz a autora, o que pensa. Como o manifesta num acto de lançamento?

Agradecendo, a todos, a tudo. 

Senhores, diz a Hirondina …

“É o meu primeiro livro. Hoje poderia contar a minha história, que não é diferente das outras, também teve seus momentos bons e maus. Mas preferi agradecer às pessoas que fazem parte dela. São muitas e é-me impossível esgotá-las. Tive a felicidade de conhecer “pessoas”; no seu mais profundo significado filosófico; e nunca caminhei sozinha”.

E continuou a falar dos ângulos da casa:

tangente

"Senhores ...

A casa que aqui apresento parte do concreto substantivo de uma habitação material para essa casa íntima, viva, orgânica. É um lugar onde cada um de nós mora sem convicções sociais, onde o estranho em nós ganha um espaço singular e próprio. 

O difícil não é escrever poesia ou trabalhar qualquer arte mas incorporá-la no nosso modo de ser. Que a nossa vida seja o poema constante. Ser o poema, a cada instante. O poema único que escrevemos no sangue”

5.- Uma nova geração a seguir o caminho da escrita
Numa entrevista à Conexão Lusófona, questionada sobre a origem da sua fonte de inspiração para escrever, afirmou: 

–A vida em si é um poço inesgotável de arte. Fui crescendo com o hábito de ler e de querer descobrir o mundo através dos livros pois, cada livro é uma viagem. A escrita tem sido um jeito de existir fora do mundo quotidiano, mas ao mesmo tempo, sem sair dele. Acho fantástico esta conjugação de modos, jeito de ser e estar comigo mesma.

Apesar de ser uma estreia, a poeta reconhece uma geração de jovens a seguirem o mesmo caminho da escrita. 

– Alegra-me o facto de existirem jovens que escrevem e gostam de o fazer. E espero que façamos coisas novas para marcarmos a nossa geração. Não basta só sermos vozes novas e não nos fazermos por isso. Moremos na casa da arte, mas não esqueçamos os quintais da ciência – constatou.

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Nota: a foto da capa do livro é de Naíta Ussene. As fotografias das páginas do livro e do manuscrito são de Hirondina Joshua assim como o extrato do texto pronunciado no lançamento.

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